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OUTRA OPINIAO

No 21 Novembro 2017.

 Lamento de um bom homem em defesa do seu semelhante 

Por Sandro Tótola (*)

Vivemos tempos sombrios, tempos rudes, tempos de intolerância, de incompreensão, de discriminação, preconceito e de perseguição, muitas vezes até com utilização de violência física. Mas não é a primeira vez que isso acontece, e nós precisamos entender esse fato, pois, analisando a história da humanidade, todas as vezes que os oprimidos buscaram uma vida mais digna, enfrentaram todas essas situações.

Peguemos, por exemplo, um dos livros mais antigos e referenciais de nossa cultura cristã, que é a Bíblia Sagrada, e relembremos a história do povo hebreu quando era escravo no Egito. Naquela época, Arão e Moisés foram pedir a faraó que deixasse seu povo viajar por três dias para oferecer sacrifícios no deserto. Ora, o que fez faraó? Chamou os hebreus de preguiçosos e suspendeu o fornecimento de palha para a fabricação de tijolos, praticamente triplicando o trabalho deles.

Assim age o poder quando os oprimidos clamam por liberdade, por pão, por dignidade: insulta-os mais ainda, agrava ainda mais suas penas. E foi assim no Império Romano com os irmãos Gracco e com Spartacus, assim como também foi na Europa feudal.

No Brasil, hoje [20/11] celebra-se o Dia da Consciência Negra. E o que significa isso? Significa que a comunidade negra atingiu um grau de maturidade suficiente para entender sua história e compreender o quanto trabalhou, à custa de chicotadas, água e pão, para a construção desse país; percebeu sua importância e, mais ainda, entendeu que somente com uma postura politicamente atuante dentro é que conseguirá, como de fato tem conseguido, elevar-se à condição de verdadeiro cidadão brasileiro.

Essa luta, que inevitavelmente se trava dentro da dialeticidade natural da política, desperta o ódio e a repulsa das oligarquias, daqueles que sempre usufruíram uma condição extremamente favorável e que sempre gozaram das benesses do Estado brasileiro em detrimento dos mais vulneráveis, oligarquias essas que, como era de se esperar, insistem em desferir ofensas e tenta agravar ainda mais as penas historicamente impostas aos negros desse país.

O exemplo vivo é o que acontece hoje em nossa querida Manga, que vem renegando suas origens à semelhança de uma árvore que espera crescer extirpando suas raízes. Os negros descendentes de escravos são a parte mais viva e tocante da história de Manga, e não há como negar isso. Contudo, quando estes, após permanecerem por várias e várias décadas completamente alijados de qualquer política pública, conseguem obter o mínimo de direitos e, por assim dizer, começaram a ter algum grau de cidadania, eis que vem a histórica força opressora afirmando que Manga irá desaparecer se os direitos constitucionais dos quilombolas foram concedidos.

Quanta falácia!

Querem que o povo de Manga acredite que essa cidade, que já conta com quase um século de existência não irá crescer porque serão reconhecidos os direitos dos quilombolas às terras que historicamente lhes pertencem! Ora, se assim é, como justificar o atraso que estamos vivendo até o presente momento? Quem é o culpado pela falta de indústrias, pela falta de saúde, pela falta de estradas, pela falta de ponte? Enfim, pela falta de desenvolvimento em Manga? Os quilombolas?

Mas... quantos quilombolas foram prefeitos de Manga? Quantos quilombolas foram deputados? Quantos quilombolas foram vereadores? Quantos quilombolas foram governadores deste Estado?

Ah, mas a culpa é dos quilombolas!

E assim, aqueles que sempre detiveram o poder político e econômico em Manga, vêm insultando os quilombolas, jogando sobre eles a culpa das administrações corruptas, incompetentes e interesseiras. Sobre os quilombolas as oligarquias de Manga despejam o descompromisso que sempre tiveram com o desenvolvimento dessa região. Sobre os quilombolas despejam a responsabilidade do enriquecimento de umas poucas famílias em detrimento de toda uma cidade!

Nem todos os conflitos podem ser evitados, mas todos devem ser superados, pois só assim há o crescimento pessoal e social, só assim o indivíduo e as instituições podem evoluir. Os burgueses enfrentaram a realeza e essa, onde não evoluiu, se extinguiu; os protestantes enfrentaram o Catolicismo, e este teve que evoluir para continuar existindo; os proletários enfrentaram os burgueses e estes também tiveram que evoluir. Em todos esses enfrentamentos, a história comprovou que após a superação dos conflitos, houve alguma evolução, ainda que a custa de mártires.

É um processo inerente à humanidade, e somente o prosseguimento da marcha, com a cabeça erguida de quem conhece sua história e sabe de sua importância como sujeito construtor de um novo mundo, é que esse período de transição será ultrapassado. Um país onde todos tenham direito a um mínimo decente de educação, saúde, alimentação, moradia e renda. A história não é uma âncora a nos deixar presos no passado, é um motor que nos impulsiona para o futuro que é nossa obrigação construir. Caminhemos sempre!

(*) Sandro Astolfi Tótola é advogado e notário e oficial titular do 1º Tabelionato de Notas em Manga, Minas Gerais.

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