Bloco de Notas

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A MÃE DE TODAS AS BATALHAS

No Sexta, 17 Outubro 2014 12:07.

Em jogo, a busca petista pelo quatro mandato e a crença de tucanos de que chegou o momento do retorno


A se crer nos números das principais pesquisas de intenção de voto neste segundo turno, o que temos é o seguinte: um país rachado ao meio entre a mudança que Aécio Neves (PSDB) possa representar e o mais do mesmo que Dilma Rousseff (PT) tem a oferecer – a despeito de ter embalado seu marketing eleitoral também com o mote do ‘mais mudanças’ se eleita for para novo mandato.

Um dado especialmente curioso deste segundo turno é o fato de que Ibope e Datafolha mostram o eleitorado estático no intervalo de uma semana para outra. Uma das leituras possíveis é que o ambiente de guerra em que se transformaram os debates e o horário eleitoral tenha assustado a massa de indecisos, que cresceu no período. O redemoinho produzido por denúncias de lado a lado e agressões no plano pessoal, que só encontram paralelo na disputa presidencial entre Lula e Fernando Collor de Mello, há 25 anos, só teria algum tipo de recepção e simpatia entre a militância de cada campanha.

A animosidade entre os candidatos, na base do ‘mentiroso’ para cá e ‘leviana’ para lá, contamina o país e estimula o clima de mãe de todas as batalhas entre petistas e tucanos nesta reta final de campanha. Se por um lado o PT tem enorme resistência a admitir a possibilidade da alternância de poder, com o argumento de que construiu um novo país em 12 anos de mando, por outro o PSDB parece convencido de que nunca esteve tão perto de retomar o poder. Tenta capitalizar em seu favor a majoritária tendência à mudança que o eleitor sinaliza.

O clima andou tão pesado que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu intervir para tentar evitar que os candidatos a presidente da República distorçam o objetivo que norteou a criação do horário eleitoral no rádio e na TV como espaço para ataques aos adversários. A decisão proíbe ainda o uso de recortes de jornais e de declarações de terceiros nas propagandas. A decisão não foi unânime e muda o entendimento anterior que era mais permissivo. No entendimento da Corte, o horário eleitoral gratuito [e que de gratuito não te nada, pois é pago com isenção dos nossos impostos] deva ser usado para debater programas e políticas públicas.

O debate do SBT/UOL/Rádios Joven Pan no final da quinta-feira parece ter sido o ponto-limite da guerra em que se transformou o enfrentamento os dois contendores na disputa presidencial, que ameaçam passar do ponto ao avançar o sinal para questões da vida pessoal do adversário. Quem ganhou?, quem perdeu? Difícil avaliar, embora Aécio Neves tenha demonstrado mais firmeza ante uma Dilma confusa em vários momentos.

Sangue frio

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ERROU NA DOSE

No Quarta, 15 Outubro 2014 16:31.

Excesso de ironias pode ter efeito contrário ao esperado por Aécio

Dia de ressaca nos chamados ‘mercados financeiros’ por conta da expectativa com os números da sucessão presidencial que as pesquisas Ibope e Datafolha vão trazer a lume logo mais à noite, no Jornal Nacional. A Bolsa de Valores caiu de maduro nesta quarta-feira, puxada pelos números de empresas do chamado ‘kit eleições’. Petrobras chegou a despencar mais de oito por cento, com a percepção de que a semana em curso pode ser da candidata Dilma Rousseff - em reação ao amplo espaço que o adversário Aécio Neves conseguiu nos dias que sucederam a votação em primeiro turno.

Mas não é só. A quarta-feira de cinzas também se justificaria porque o esperado massacre do candidato Aécio Neves no tête-à-tête com Dilma Rousseff no debate do Grupo Bandeirantes não aconteceu. As avaliações mais ponderadas dão conta de empate no embate entre os dois candidatos, mas com ligeira vantagem para a presidente Dilma – que, se não foi enfática nem brilhante no quesito retórica, teria conseguido surpreender o tucano com denúncias de desvios de dinheiro na saúde e a história do nepotismo durante a passagem do neto de Tancredo pelo governo de Minas.

Aécio, por seu turno, não trouxe fatos novos para o debate. Algo que pudesse surpreender Dilma e tirá-la do sério, com agenda fora do script combinado com seus assessores ao longo da terça-feira. O tucano ficou no mais do mesmo do escândalo na Petrobras e na tentativa, que de resto já leva adiante no horário político, de tentar mostrar o fracasso do governo Dilma na seara da macroeconomia. No mais, foi um festival de ‘o candidato falta com a verdade’ ou “é mentira da candidata”, que serve apenas ao cardápio de expectativas de quem já decidiu seu voto.

O risco para Aécio foi ter pesado a mão nas ironias contra a adversária, o que pode levar o eleitor indeciso a ver apenas arrogância onde o candidato esperava disseminar segurança e determinação. "Seu governo chega ao final de forma melancólica", afirmou o tucano lá pelas tantas.

As pesquisas desta noite não devem pegar ainda o clima do debate na Band, mas há certa expectativa no ar para que Dilma retorne à dianteira – ainda que na margem de erro. Nada, no entanto, é definitivo: a disputa segue acirrada e aberta às surpresas. Restam ainda três debates na TV. O principal deles na TV Globo, no dia 24 de outubro, a dois do segundo turno – quando eventual erro não tem retorno.

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DEU A LOUCA NAS PESQUISAS

No Terça, 14 Outubro 2014 09:45.


O capital mais precioso dos institutos de pesquisa é – ou pelo menos deveria ser – a credibilidade. É conquista árdua, que se acumula aos poucos e ao longo do tempo a depender do percentual de acerto em relação aos levantamentos que realiza. Os números que têm sido divulgados neste segundo turno não falam coisa com coisa e tem gente boa comendo mosca, por erro na margem ou pura má fé. Neste último caso, tentativa clara de direcionar os rumos da disputa presidencial. Numa palavra: mais uma das possibilidades de crime eleitoral.

Ora, essa pesquisa IstoÉ/Sensus divulgada no último final de semana mostra o candidato Aécio Neves (PSDB) 17 pontos percentuais à frente da adversária Dilma Rousseff (PT) não pode ter como mesma base de dados o levantamento que o Instituto Vox Populi preparou, e que a Rede Record de Televisão divulgou nesta segunda-feira. Segundo o Vox Populi, Dilma (45%) está a frente do tucano Aécio (44%). Os números parecem falar de países distintos ou de momentos eleitorais diferentes.   

É óbvio que alguém erra feio nessa história. A possibilidade dos candidatos estarem colados na preferência do eleitor é mais provável neste instante da disputa – como, aliás, indicaram os levantamentos do Datafolha e Ibope da semana passada. Ponto para o Vox Populi e a TV Record. Ainda assim, outro levantamento desse mesmo Vox Populi para a emissora do bispo não foi divulgado, ou demorou muito para vir à luz do dia, porque supostamente não interessava ao PT. Nunca é demais lembrar que a Record é dona de partido político aliado ao governo federal.

Também na semana passada o desconhecido Instituto Paraná e o mineiro Veritá, este nem tão desconhecido assim, divulgaram pesquisas que colocavam o tucano na frente da petista, com vantagem em torno dos 10 pontos percentuais. A coligação liderada pelo PT questionou a metodologia utilizada pelo Instituto Paraná na Justiça Eleitoral. E fez muito bem. A simples possibilidade de manipulação dos números é algo muito grave. De lado a lado. Amanhã sai nova rodada do Datafolha e Ibope. Por tradição, são dados mais confiáveis – a despeito dos recentes furos do Ibope no primeiro turno, em especial na surpreendente virada petista na Bahia.

Os nervos estão mesmo à flor da pele neste momento da disputa presidencial. De um lado, o medo de perder o mando federal em uma eleição planejada para ser um grande passeio de Dilma Rousseff – o PT só descobriu que não levaria em primeiro turno após a tragédia que vitimou Eduardo Campos. Na outra margem, a convicção de nunca a retomada do poder esteve tão próxima – com o evidente desgaste petista na seara da moralidade e cuidado com a coisa pública. Tudo isso é verdade, oque não justifica que institutos de pesquisas sirvam a interesses não confessáveis ao oferecer seu principal patrimônio na bacia das almas das conveniências eleitorais.

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EDMÁRCIO E O FIM DE FEIRA DA IDEOLOGIA

No Sábado, 11 Outubro 2014 11:21.

O prefeito de Matias Cardoso, Edmárcio Moura Leal (PSC), com o polegar em sinal de positivo na foto ao lado, fez as contas e descobriu que carreou para o deputado federal Gabriel Guimarães a maior votação proporcional em relação a todos os municípios mineiros em que o petista foi votado. Gabriel recebeu 2.630 votos em Matias Cardoso, o que equivale a 58% dos votos válidos ou 1,31% dos mais de 200 mil votos com os quais Gabriel foi reeleito para um segundo mandato.

O curioso, é que Edmárcio assume ter feito uso da estratégia de colocar os pés em duas canoas, ao apoiar deputados estaduais antagônicos entre si e, mais que isso, inimigos e donos da maior rivalidade na atual política do norte-mineiro. A saber, Arlen Santiago (PTB), votados por 1.560 eleitores de Matias Cardoso, e Paulo Guedes (PT), que recebeu 768 votos. A soma de ambos é mais ou menos equivalente à votação do federal Gabriel – o que indica que Edmárcio mantém em carteira, e como moeda de troca, quase dois terços do eleitorado local.

A manobra esperta de lotear a base política e dividir os apoios entre deputados ligados ao atual governo mineiro e ao petismo, na esfera federal, não é, obviamente, exclusividade do prefeito Edmárcio. Muitos deles trilharam esse caminho quando tudo parecia indicar outra vitória do PSDB em Minas. A diferença é que Edmárcio se jacta do feito. Para ele, a “parceria” com os três deputados contribuiu para viabilizar a transferência de recursos do estado e União para o município, inclusive na difícil convivência com a seca. Pode ser. O difícil é explicar para o eleitor essa postura política nem quente nem fria, muito antes pelo contrário em que o sujeito e ao mesmo não é, agora que tucanos e petistas tentam, mutuamente, arrancar o escalpo adversário.

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PERÉ SAI DE CENA

No Segunda, 06 Outubro 2014 14:42.

Não conheci Luís Carlos Novaes, o Perereca, ou Peré, para a turma do petit comité. Nunca o vi, mas, de certa forma, é como se o tivesse conhecido. Em especial, pelos relatos que dele me fez o jornalista e radialista Benjamim Oliveira Júnior, amigo de infância, em Manga, hoje radicado em Janaúba. Peré morreu na tarde do último domingo, aos 60 anos, em plena muvuca da refrega eleitoral – como convinha a um jornalista da boa cepa.

Mal comparado, é como se o porta-bandeira deixasse o espetáculo e a avenida em pleno Carnaval. Peré foi mais uma vítima do câncer, no caso dele no intestino, com o qual travou cinco anos de longa batalha e muito bom-humor, apesar dos pesares.

Os poucos contatos que tive com ele foram via e-mail e Facebook, onde ele usava uma perereca verdinha à guisa de foto. Nas mensagens que trocamos, eu normalmente reclamava do uso de textos meus no ‘Jornal de Notícias’, sem o devido crédito. Sempre cortês, pedia desculpa pela falha e garantia que ela não se repetiria. Nonadas. Bagatelas diante do fato indelével da sua partida.

Peré chamou minha atenção por dois motivos: primeiro pelo diferencial que imprimiu ao ‘Jornal de Noticias’ na seara da comunicação norte-mineira. Não tenho elementos para julgar que tenha sido mérito só dele, pois jornais costumam ter a cara que seus donos queiram imprimir, mas é preciso certo apego e isenção para não cair na tentação de fazer um mero panfleto dos mandachuvas de plantão na política local.

Outra fato a destacá-lo, coisa rara nas lides do jornalismo, efoi o respeito unânime com que todos os colegas se referiam a ele. Em vida, o que é incomum, mas sobretudo agora que a morte a todos eleva. Não tenho elementos para traçar um perfil de Peré. Deixo um link aqui para o relato emocionado que Oliveira Júnior faz de mais de duas décadas de convivência do amigo [dele] e mestre.

Ele era ainda um amante das artes -- a música em especial -- e cronista de mão cheia. Colecionou, ao longo do tempo, importante acervo com registros de artistas da terra. Por tudo que li sobre a morte de Peré, é de se concluir que ele deixa lacuna imensa a tantos quantos privaram da sua amizade.