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O JOGO NÃO JOGADO

No 13 Julho 2014.


De tudo que se escreve e diz por aí sobre a melancólica participação da seleção brasileira na Copa do Mundo em sua própria casa, vale citar a guinada em 360 graus entre as expectativas do pré-torneio e o que restou após esse mês fugaz do reinado do Planeta Bola entre nós. Lá pelo início de junho [basta retornar às folhas e sites para constatar], o senso geral apontava para o inevitável sucesso do nosso escrete, condenado a ser hexacampeão, dada a sua superioridade tática e técnica, o que nos conferia vantagem insuperável dentro das quatro linhas.

Por outro lado, o clima antes da Copa era de expectativa para o iminente fracasso na organização do evento. O que viesse seria lucro, a compensar a incapacidade pátria para organizar evento de tal porte – visão negativa contaminada, de resto, pela possibilidade de protestos nas ruas, fiasco nos aeroportos e o histórico pouco alentador do movimento #nãovaitercopa, potencializado com os atrasos na conclusão dos estádios e na entrega das chamadas obras de mobilidade. Era pouco provável que o caos tomasse conta do país em período de Copa do Mundo, pois o futebol por aqui é o equivalente ao ópio do povo pensado por Marx em outro contexto. Sobre esse tema, sugiro ao leitor uma visita ao artigo 'A copa e o nível do copo'.   

Depois do jogo jogado, a imaginação brasileira compensa o complexo de vira-latas pela tragédia vista em campo com sua contrafação ufanista de que fizemos a melhor copa de todas as copas, além de mostrar para o mundo nossa incomparável hospitalidade. O fracasso no gramado, elevado à condição de humilhação nos 10 gols sofridos em duas partidas, é compensado com o fato de que fomos capazes de organizar um mundial tão bem quanto os alemães, os novos carrascos do orgulho pátrio.

A volta à realidade não é fácil, mas sem dúvida o brasileiro sabe fazer o contrapeso ao verdadeiro choque emocional visto no Mineiraço com essa espécie de fuga demonstrada na capacidade quase incomparável de rir do próprio fracasso, em que se destaca as piadas em redes sociais. É o que resta a fazer depois que os sonhos de triunfo e soberania do nosso futebol perante o mundo se transformaram em um dos maiores vexames da crônica esportiva e fora dela.

Ainda na série o jogo que não foi jogado,

... não deixa de ser curiosa a incapacidade de reação do brasileiro aos responsáveis pela sua frustração. Exemplo disso foi a torcida pelo terceiro lugar e o apoio, agora não mais incondicional, aos jogadores depois do fiasco diante da Alemanha, além da aceitação passiva do escárnio de Felipão e Carlos Alberto Parreira nas entrevistas logo após os desastres em campo, . Desculpas esfarrapadas e incapacidade de explicar o fracasso que doeu na alma brasileira, além dos cínicos autoelogios de ‘quem deu o seu melhor’.

Quando migramos para o campo da política, lá estão os mesmos elementos que vão manter, pela via do voto, tudo que vai de mal a pior no campo metafórico da Nação – com destaque para as jogadas desleais da corrupção. A crise de representação com a nossa seleção, logo ela que o inconsciente coletivo há muito escolhera como a representação simbólica do nosso sucesso na medição entre os povos, é, de certa forma, a mesma em relação à classe política.

Daqui a pouco, quando as luzes do novo Maracanã, se apagarem para delimitar o fim do espetáculo que, sem dúvida, foi a Copa do Mundo, a política entra em campo para o jogo ainda não jogado. Serão 90 dias para a discussão com qual país sonhamos e que seria justo querer. A considerar as caneladas e o mau comportamento dos principais contendores até aqui, começa nova temporada de jogo feio e desleal. Os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves tentaram, cada um a seu modo, tirar uma casquinha no que seriam sucessos e fracassos da Copa do Mundo. Pisaram na bola.

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