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MOEDA DE TROCA

No 16 Agosto 2014.

Você não sabe, mas seu voto já foi vendido



Por Fábio Oliva (*)

Você não sabe, mas o seu voto já foi vendido. Pouco importa em qual candidato ou partido você vai votar. Alguém já recebeu por ele. Mesmo antes da abertura da temporada de caça aos votos, em julho, seu voto já vinha sendo negociado.

Os mercadores do seu voto são principalmente vereadores, ex-vereadores, prefeitos e ex-prefeitos, presidentes de sindicatos e associações de moradores de bairros, donos de jornais e dirigentes de entidades detentoras de rádios comunitárias, padres,, pastores e outros chamados de “lideranças comunitárias”.

Eles recebem vultosas quantias de candidatos a deputado estadual, federal, senador, governador e presidente para cooptar o seu voto, mesmo que você não veja a cor de um tostão. A conta feita, geralmente, é simples: os compradores verificam quantos votos os candidatos a vereador e a prefeito conseguiram dos incautos eleitores nas últimas eleições, ou quanto votos tais "lideranças" deram aos candidatos que apoiaram, estimam uma redução de 50% e pagam entre R$ 30 e R$ 80 por voto resultado desta aritmética. Os vendedores mais eficientes ainda conseguem empregos com polpudos salários para si ou para esposas, filhos e outros parentes como "aspones" nos gabinetes dos eleitos. Tudo isso sem precisar pisar o pé nos gabinetes daqueles. O apoio de um líder político de maior expressão está sendo comprado por R$ 200 mil.

Não pensem caras pálidas que os candidatos a prefeito e a vereador nas últimas eleições e as tais "lideranças" comunitárias estão percorrendo as poeirentas e esburacadas ruas e estradas de seu município com caixas de som sobre o teto ou caçamba de seus veículos por puro idealismo.

E tem "liderança" que vende seu "apoio" político a mais de um candidato ao mesmo cargo. Recebe de ambos e jura fidelidade e compromisso. É de matar de rir. Alguns prefeitos recebem verdadeiras bufunfas dos candidatos, embolsam o dinheiro e bancam o "apoio" político com verbas das prefeituras.

Não acreditem que fazem isso por convicção ideológica. Tampouco ache quem realizam essa tarefa por imaginarem que o candidato para o qual estão pedindo o seu voto, já vendido, é o melhor e mais compromissado com a resolução dos problemas que afligem você e seus conterrâneos.

Não!

Estão fazendo isso porque já receberam o pagamento, em seu nome e, agora, têm que dar o retorno esperado. É que, em alguns casos, a combinação inclui além do pagamento inicial, um bônus se a quantidade de votos por eles obtidos (comprados) atingir o número esperado.

Um candidato a vereador me revelou que saiu da última política endividado e que recebeu R$ 15 mil para pagar tais dívidas com o compromisso de pedir votos para um deputado federal. Também obteve emprego de assessor no gabinete do mesmo. Seu candidato desistiu da disputa. Então ele negociou seu “apoio” político por R$ 100 mil para outro político.

Lideranças do baixo clero, sem muita expressão, recebem na pior das hipóteses R$ 5 mil “para ajudar no combustível” e saírem em busca do seu voto. É por isso que há tantos candidatos “paraquedistas” com cartazes nas ruas. Gente que você nunca viu ou sobre as quais você nunca ouviu falar. Eles surgem do nada, com aquela imagem retocada a Photoshop, sem um pé de galinha, sem uma ruga, sem uma mancha, sem uma verruga ou pinta na cara. Nariz de Pinóquio então, nem pensar. De tão caras-de-pau, quando fazem a barba não cai pelo, cai é serragem.

Calculando por baixo, levando em consideração que cada voto tenha sido vendido a R$ 30, significa dizer que esses agenciadores de votos terão que, na pior das hipóteses, arranjar cerca de 500 votos para os candidatos aos quais venderam seus “apoios” políticos. E, se conseguirem mais de 500 votos, ainda podem garantir uma boquinha como assessor de alguma coisa, após o período eleitoral.

Essa deplorável realidade não pode ser atribuída apenas à ignorância política da grande maioria dos eleitores. Também nada tem a ver com sua realidade econômica ou social. Noutras palavras, não são apenas os eleitores pobres e miseráveis que têm seus votos vendidos. Mesmo o voto de quem conquistou nível superior de educação entra nessa dança. Nesse caso a moeda de troca do voto nem sempre é dinheiro, mas as massagens no ego, os apalpos na vaidade, a necessidade de demonstrar prestígio dizendo que é amigo pessoal desse ou daquele político. É... não se engane, tem gente assim.

Nesse período, não faltam padrinhos de formatura, casamento, etc. E, não importa o que você faça, seu voto já foi vendido. Mesmo que você vote em branco ou anule o seu voto, estará contribuindo para a eleição de alguém, pois o candidato que comprou votos terá necessidade de menos votos se eleger.


(*) Fávio Oliva é jornalista há 30 anos. Há dez, dedica-se ao jornalismo investigativo. É militante da luta anticorrupção, membro do conselho de administração da ONG Amarribo Brasil e advogado militante.


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