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E O POVO VOLTA ÀS RUAS?

No 12 Março 2015.

País vive expectativa para efeitos sobre a crise com as manifestações pro e anti-governo programadas para sexta e domingo

# Não cabe falar em impeachment, por falta de fato objetivo, mas resultado do embate pode agravar o quadro

Ilustração: www.orlandeli.com.br

O Brasil anda terrivelmente chato quando o assunto é política – o que não é de todo mal, pois esse não é mesmo um tema fácil. Até aí tudo bem, não fosse o fato de que estamos todos na iminência de enfrentar uma forte recessão na economia e possíveis turbulências no campo institucional.

De um lado, o samba de uma nota só do petismo contra a ‘mídia golpista’, além do trololó sobre a tal ‘elite branca’ que deseja despachar dona presidenta - tudo porque estaria insatisfeita com o fato de que ‘pobre agora frequenta aeroportos’ ou que há, em solo pátrio quem não consiga conviver com a ideia de que o filho de uma doméstica pise nos domínios de uma universidade.

A leitura de conjuntura está errada, como demonstram os índices de aprovação da presidente nos antes fidelíssimos Norte e Nordeste do país, mas o partido da ordem se aferra a ela como náufrago após o descompasso nas finanças públicas. Este sim, com grande potencial para levar os pobres e desvalidos à beira do inferno da inflação que corrói salários e rouba conquistas. O buraco é mais embaixo, posto que governos bem-sucedidos não se abalam com esse tipo de problema.

Lado oposto, estão as lideranças de oposição, Aécio Neves à frente, reclamando porque o PT adotou o programa que teria imposto ao país caso a oposição tivesse ganho as eleições. Tudo isso bem temperado com o molho de óleo cru do escândalo da Petrobras. Do bate e rebate que paralisa o Brasil, resulta agora que o povo, essa entidade bem vaporosa, decide ir para as ruas, convocada por lideranças políticas e sindicais ou de moto próprio, vai saber.

O embate começa nesta sexta-feira 13, dia bem sugestivo, com o ato patrocinado por centrais sindicais denominado Dia Nacional de Luta em Defesa dos Direitos da Classe Trabalhadora, da Petrobrás, da Democracia e Reforma Política e Contra o Retrocesso. Uma agenda extensa demais, como se vê, mas que o governo resolveu adotar como defesa da sua tese de que qualquer iniciativa na direção do impeachment é puro golpe, a despeito do presidente da CUT, Vagner Freitas, acrescenta que “não é um ato nem pro nem contra o governo”. O que no mínimo uma incoerência, porque brigar por direitos da classe trabalhadora é, inevitavelmente, uma agenda de cobrança ao governo.

A boa notícia para o governismo é que não há o chamado fato objetivo que justifique a abertura de processo de cassação contra a presidente. Não é por aí que ela precisa perder o sono. O problema do governo é de fundo: a cada dia que passa, a presidente vai se acuando no labirinto em que é jogada pelo PMDB, o principal aliado na aliança em que se elegeu, e pelo próprio PT, de onde tem origem boa parte da insatisfação com a sua gestão neste segundo mandato.

A questão, portanto, é de governabilidade...

porque qualquer pauta a ser aprovada no Congresso Nacional exige dispêndios cada vez mais caros ao país. Os presidentes das duas casas congressuais Renan Calheiros (Senado) e Eduardo Cunha (Câmara), ambos do PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer, não são conhecidos exatamente por sua inocência política. O PMDB, claro, namora a tese do impedimento da presidente, mas tem em seu desfavor o fato de ter os nomes de Renan e Cunha envolvidos no lamaçal da Petrobras.

As marchas e contramarchas prometidas para os próximos três dias terão como fecho o grande protesto programado contra do governo para o próximo domingo, 15. Será outra iniciativa em que cabe de tudo, desde o afastamento da presidente até o batido ‘contra tudo isso que está aí’. Resumo da ópera: governo e oposição vão medir forças no momento em que a conjuntura é extremamente desfavorável para quem está no poder.

O governo comete outro erro de avaliação ao supor que pode exigir que a populaçao doe sangue, suor e lágrimas no duro ajuste fiscal que leva à frente e ainda tope subir na trincheira da defesa do seu discurso, agora enferrujado pelo cotejo do que foi dito na campanha e o que definitivamente se colocou em prática. A depender do resultado do embate entre esta sexta-feira e o domingo, dona presidenta assume de vez a condição de pato manco, situação em que o governante de plantão nada mais tem a oferecer em termos de expectativas. O risco é a agenda passar do chamado golpismo com impeachment para um processo tão sofrido quanto de pressão pela sua renúncia, se e caso a crise econômica ganhe status de pesada recessão, combinada com eventual falta de energia e água nos meses mais secos do ano.

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