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O BLOCO DOS NAPOLEÕES RETINTOS

No Segunda, 03 Março 2014 12:31.

Celebrado como marco da refundação pátria, mensalão é retrato das nossas limitações e velhacarias

Ilustração: www.orlandeli.com.br

Meus 17 leitores são testemunhas de que tenho evitado comentar aqui as marchas e contramarchas do mensalão. Desconfio que o cidadão comum, e já não é de agora, anda enojado dessa agenda que os homens lá de cima, e a mídia massiva, insistem em oferecer como prato principal da política nacional. A verdadeira verdade sobre o triste episódio da compra de apoio congressual pelos operadores do lulismo vagueia, titubeante e arisca, entre a pecha de maior caso de corrupção da história da nossa infortunada República e a cara de angelical paisagem que Zé Dirceu et caterva ensaiam a respeito do assunto.

Nem mesmo o Supremo Tribunal Federal conseguiu manter o papel de neutralidade, esperado a quem caberia a postura institucional de julgar as estripulias do submundo em que se meteram os delúbios e dirceus, naquele esforço para garantir a governabilidade na aurora do lulismo. Além do jogo de cena para as câmeras de TV, que agora transmitem ao vivo as sessões da Corte, os supremos ministros se empenham diuturnamente em opinar fora dos autos ao primeiro sinal de microfone aberto e refletores ligados.

Chegamos a este Carnaval em clima de ressaca cívica, depois do recuo do plenário do STF sobre o status de ‘quadrilha’ para os petistas que se deram ao trato, lá pelos idos de 2004, com a mais fina flor da turma que comanda os partidecos de aluguel que vicejavam e ainda vicejam nos gabinetes de lideranças do Congresso Nacional. Jogo jogado, o que se sabe é que os ditos ‘mensaleiros’ não demoram a pagar suas contas com a sociedade, quando serão recebidos com status de heróis da pátria pela barulhenta claque de militantes.

O que era para ser julgamento com base no instrumental jurídico disponível, acabou em barulhento cabo de guerra entre oposição e situação, com a adesão inconsequente e festiva de parcela dos juízes da mais alta Corte do país. Quantos deles se prestaram ao papel de líderes de facção?, quando roubavam a cena das verdadeiras lideranças partidárias. Os exemplos jorram das páginas dos jornais, inclusive o recente lamentar do presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, sobre a triste tarde para a Corte, quando oitos condenados foram absolvidos do crime de formação de quadrilha em ato revisional.

Vide ainda a absurda admissão...

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PAGUE PARA PASSAR: É O BRASIL PRIVATIZADO

No Sexta, 27 Dezembro 2013 20:05.

Com leilão da BR-040 governo petista consolida guinada na direção oposta de antiga pregação


A expressão estelionato eleitoral anda meio fora de moda, mas serve à perfeição para explicar a guinada (envergonhada, é bem verdade) do PT rumo à cessão do estado para a exploração da iniciativa privada. O termo anda em desuso, mas fez muito sucesso no auge do Plano Cruzado, quando o PMDB elegeu governadores em quase todos os estados brasileiros para, logo em seguida, mudar toda a orientação que manteve a inflação artificialmente domada.

Antes de ir adiante, falta acrescentar que estelionato eleitoral é conceito da ciência política que explica os casos de conversão de candidatos que, eleitos com plataforma ideológica de certo matiz, adotam, durante o governo, programas com viés ideológico totalmente oposto ao que pregavam quando na oposição. Em geral, são políticos eleitos pela esquerda e que, em seguida, adotam políticas de direita. É mais ou menos o que acontece atualmente no Brasil.

O governo da presidente Dilma Rousseff entregou nesta sexta-feira (27) quase mil quilômetros da BR-040 para o grupo Invepar – que já vencera o leilão de privatização do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Foi o último leilão do ano -- parte da série de concessões que o governo federal realiza desde setembro para a concessão de rodovias que fazem a ligação entre as regiões Centro-Oeste e Sudeste. Outros leilões virão por aí, justificados pela necessidade premente de se melhorar a infraestrutura e logística nacionais, que envolve, além do filé mignon da nossa malha viária, portos aeroportos e o que mais vier.

Triste cena e tristíssima sina brasileira. Em pelo menos duas das três últimas eleições presidenciais, os petistas usaram o tema das privatizações para desqualificar os rivais tucanos. Com certo atraso histórico e falsos rubores de face, o partido agora adere, cínica e gostosamente, ao discurso de que serviço bom é, necessariamente, serviço na mão da iniciativa privada. E o pior: aparentemente pega de surpresa com a mudança de discurso do petismo, a oposição não conseguiu até aqui articular discurso minimamente inteligível para desmontar a farsa.

Precursores das privatizações no país, com o desmonte do monopólio estatal nas comunicações durante o governo FHC, e com as mesmas privatizações de rodovias durante vários mandatos em São Paulo, os tucanos comungam com a tese de serviço pra ser bom não pode ficar na mão do Estado.

Nem tanto ao céu nem tanto ao mar

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AS LETRAS DE CARLOS DIAMANTINO ALKMIM

No Segunda, 23 Dezembro 2013 01:30.

PUBLIEDITORIAL (*)

Em 15 anos de carreira, jornalista publica nove livros de poesias, crônicas, romances e documentários


 

Corria o ano de 1999, já no findar do século vinte. O jornalista Carlos Diamantino Alkmim reúne manguenses radicados na capital mineira para lançamento da sua primeira obra literária. Saia do prelo o livro de crônicas ‘Sabor de Manga’, o primeiro de uma série na carreira do autor .

Era o final de uma longa etapa, que consumiu 20 anos de rascunhos anotados no papel com canetas esferográficas e saudosos tique-taques da máquina de datilografia - marca Remington, que acompanhou o autor em suas lides literárias por uma longa jornada até ser substituída pelos computadores. Um sonho, há muito acalentado, tornava-se realidade. A primeira obra de Diamantino estava pronta para edição e publicação teve apoio do BDMG Cultural. Um livro nascido da emoção e do amor pela terra natal do jornalista, que finalmente podia ser folheado, admirado, criticado e amado pelos manguenses nas histórias narradas da sua infância à beira rio.

“Tenho as imagens vivas, latentes e emocionantes daquela noite memorável de reencontros dos conterrâneos. Ainda os vejo a folhear os sabores do querido Rio São Francisco, da fauna e flora do sertão mineiro, no deleite dos costumes das pessoas durante as décadas de 50 e 60. Lembranças das ruas bucólicas da minha querida Manga.

Como valeu a perseverança, como valeu esperar o sopro do

destino”, recorda Carlos Diamantino. O escritor diz que, a partir daquele despertar literário, as letras se avolumaram e se tornaram concretas em mais oito novos livros. São agora mais de 2.000 páginas de registros das muitas histórias e estórias, sempre tendo como foco a sua terra, a sua gente e o seu rio – o majestoso São Francisco, com seus vapores e causos.

Para o presidente da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, escritor Petrônio Braz, o livro ‘Sabor de Manga’ é relicário e memorial preciosos do autor, mas não foi escrito só para o povo de Manga. O livro, avalia Petrônio, retrata o São Francisco, a vida ribeirinha de todas as cidades que se criaram às margens do grande rio. E a carreira de Diamantino segue avante. Em 2001, o escritor lança outro dos seus títulos, ‘O repórter e os coronéis’, em parceria com a colega jornalista do Palácio da Liberdade, Ivany Rocha, em evento que contou com a presença do então governador de Minas, Itamar Franco.


Ao chegar ao salão nobre do BDMG, local do lançamento da obra, ladeado pelos seus principais secretários de Estado, Itamar brindou o manguense Diamantino com a seguinte frase:

- Aqui está o novo Guimarães Rosa do sertão mineiro ...

Emocionado, o escritor fez, na ocasião, breve relato sobre o teor do livro que narra a grave problemática da seca nas regiões do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, ao afirmar que descobriu outras Minas em suas andanças por essas regiões. E concluiu:

- Falo de uma Minas que tem sede, fome e esperança, governador!

Carlos Diamantino voltou a encontrar o ex-presidente Itamar Franco durante a noite de autógrafos do seu primeiro livro de ficção, no ano de 2007, também em Belo Horizonte: ‘Os Tabaréus na Cidade Grande’, obra que relata a migração de moradores do meio rural para as metrópoles.

- Não poderia faltar a este compromisso, Dominicano -, disse Itamar que, ao cumprimentá-lo, repetiu a forma como se dirigia, carinhosamente, no dia a dia, ao jornalista e um dos seus assessores.

- Começo a ler e depois repasso minhas observações – prometeu Itamar, na época, ao receber o livro com a especial dedicatória de Diamantino.

Noite de autógrafos

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ARTIGO

No Segunda, 29 Julho 2013 12:49.

O bosque e suas árvores

Ilustração: www.orlandeli.com.br

Finda a visita do papa Francisco ao Brasil, a vida continua no seu ordinário de boas ordinarices. A avaliação de que Francisco deu boas lições à nossa classe política, com seus exemplos de simplicidade, popularidade e compromisso com os mais pobres não deixa de ser procedente. Penso, porém, que o papa argentino deixou recados claros mesmo foi para os pastores da sua Igreja.

Do pouco que consegui acompanhar da jornada de Francisco ao país, percebi, de modo mui recorrente, suas mensagens para que os sacerdotes deixem de lado as pompas e circunstâncias – e o estrelato, eu diria, agora com essas redes de televisão que cobrem todo o território nacional – a que estão acostumados. O  papa foi habilidoso no uso das simbologias ao tentar passar a ideia de que, sob seu comando, o mundo terá uma Igreja para o pobres.     

Não é só o exemplo mais óbvio do automóvel necessário, pero barato. É toda a ostentação que afasta a Igreja do seu público preferencial – cooptados aos milhões por seitas neopentecostais, caso de que o Brasil é bom exemplo agora sob a ameaça de perder, a médio horizonte, o posto de maior país católico do mundo.

Parcela do nosso bispado certamente se remexeu sob suas mitras e mozetas ao serem instados pelo santo padre a deixarem seus gabinetes de trabalho e subirem as favelas e rincões, ao encontro dos mais pobres e necessitados. Menos mal que a orientação encontrou ressonância em muitos ouvidos e corações sacerdotais. Fosse o contrário, a Igreja não seria o que é mundo velho estaria irremediavelmente perdido.

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SÍNDROME DO LAMPIÃO A GÁS

No Domingo, 21 Julho 2013 11:36.

O erro estratégico do poste se assumir como tal

Ilustração: www.orlandeli.com.br/

Há risco de efeito colateral quando lideranças carismáticas elegem os chamados candidatos-postes: é que, volta e meia, pode surgir a necessidade do padrinho ter que subir em escadas para trocar a lamparina. A situação mesma do ‘poste’ é também incômoda, porque não são pequenas as chances da sombra do criador se interpor entre o eleito e o eleitor pelo período de quatro anos. Escrevi artigo a esse respeito em setembro de 2010, que, visto em retrospectiva, ganha nuances de profecia de pouca utilidade (aqui).

É o caso presente nas esquisitices deste país chamado Brasil. Só pode ser classificada no nível da deselegância para com Dona presidenta a inclusão do nome do ex-presidente Lula na última pesquisa do Ibope de intenção de votos para a próxima sucessão presidencial.

Não por mera coincidência, na mesma semana em que o presidente saiu de curto período de mutismo desde que pipocaram os protestos do mês de junho e que deixaram os céus do Brasil mais iluminados. De uma hora para outra, Lula desandou a falar sobre tudo, a começar pela coincidência da publicação do primeiro artigo mensal que passa a assinar no prestigiado jornal ‘New York Times’.

A pesquisa Ibope contribui para evidenciar o clima de mal-estar desde que o PT se deu conta, pela primeira vez, que corre algum risco na sucessão presidencial do ano que vem. Lula se saiu bem melhor que a sua pupila (41% das intenções de voto, contra 30% dela), nesse que é, de longe, o pior momento do atual governo desde que Dona presidente assumiu o cargo, em janeiro de 2011. Lula voltou à cena -- inclusive -- para desmentir boatos de que o câncer que o vitimou há bem pouco tempo teria recrudescido.

Os políticos brasileiros não atravessam boa temporada. Desse ponto de vista, não deixa de ser ironia o fato de que a presidente, que não se cansa de dar demonstrações de não trafegar com destreza pelo mundo da política tradicional, ter sido engolfada pela crise que veio no rastro dos levantes de junho. A primeira atitude do governo federal de fazer de conta que não tinha nada com os protestos contra os tais 20 centavos na passagem de ônibus custou caro como erro de cálculo e estratégia – embora tenha contribuído para reduzir o ímpeto da inflação. Este sim, problema que compete a Brasília administrar. Mas não só, como ficou evidente.

Os números da pesquisa Ibope ilustram a dificuldade da presidente no horizonte de curto prazo: recuperar a confiança e o espaço perdidos. A constatação de que Lula faz sombra sobre seu governo não ajuda, porque, em política, a percepção de poder futuro vale mais que o poder efetivo. Dona presidenta cometeu erro grave ao correr para se aconselhar com o ex-presidente assim que a barra pesou para o seu lado nos protestos de junho.

Não foi a primeira vez que os jornais noticiaram seu recurso ao antecessor como fonte de aconselhamento, mas foi aquela em que se apresentou como primeira crise real do governo e oportunidade para mostrar independência e tino. Erro estratégico que o eleitor médio não alcança, mas que faz a festa dos aliados da grande coligação que arregimentou para sustentar o governo. Atente o leitor para esse fato e seus desdobramentos nos próximos meses. No mais, resta dizer que a relação de dependência entre os postes da política e seus mentores é mais comum do que se possa supor. Atente.