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OS NEOFRACASSOMANIACOS

No Segunda, 17 Junho 2013 13:21.

Aécio e o Velho do Restelo


No artigo semanal para a ‘Folha de São Paulo’ desta segunda-feira, o senador Aécio Neves (PSDB) botou a carapuça na menção que a presidente Dilma Rousseff fez, na semana passada, aos críticos da política econômica do seu governo. Dilma comparou as vozes dissonantes ao ‘O Velho do Restelo’, a personagem criada por Luís de Camões para o clássico ‘Os Lusíadas’. Conhecido por seu pessimismo, o personagem ficava sentado às margens das praias e não acreditava nas conquistas de Portugal durante as grandes navegações.

Sob a ótica governista, o papel do ‘Velho’ pessimista cabe a muita gente: aos oposicionistas no atacado e varejo, a certos setores da imprensa, a classe média endinheirada o suficiente para vaiar a presidente nos estádios et caterva. Mas deve ter sido mesmo Aécio Neves o alvo da elegante crítica presidencial. O mineiro apostou na falta de rumos para o controle da inflação e acabou por colher os louros na leve ascensão conseguida nas últimas pesquisas de intenção de voto para 2014.

Em seu artigo, Aécio devolve a pecha de ‘Velho do Restelo’ para o próprio PT e seu histórico de franco ceticismo quanto ao sucesso do Plano Real e até mesmo em relação à Constituição de 1988 – que o partido ameaçou não assinar por descrê nas mudanças que a nova Carta traria ao país. A despeito da oposição petista, segundo o senador, o Brasil singrou por mares nunca antes navegados de normalidade democrática e estabilidade na economia. Velho ou não, Aécio busca mesmo as glórias do passado para sustentar o presente.

De resto, apesar de feliz, é improvável que a citação aos ‘Lusíadas’ chegue para consumo de massa, por conter certa sofisticação para o nosso padrão médio de entendimento. Melhor talvez fosse o 'fracassomaníaco' a que Fernando Henrique Cardoso recorreu quando passou por situação semelhante, lá se vai mais de uma década.

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NÃO É COISA PARA MENOSCABO

No Domingo, 16 Junho 2013 21:34.

Temos uma outonal primavera à brasileira?


As atenções da semana que começa estão voltadas para os desdobramentos das cenas que surpreenderam o país nos últimos dias. Os protestos de rua vão continuar, é a pergunta que muita gente se tem feito -- ainda em meio às tentativas de entender de onde vem esse surto de rebeldia. Os palpiteiros de sempre tascam suas certezas de que, ora viva!, o brasileiro enfim deixa a sua bovina apatia em relação aos governantes.

A reivindicação-base do Movimento Passe Livre (MPL) beira à ingenuidade, porque não é possível supor que a totalidade da sociedade vá concordar em bancar transporte público gratuito como se reivindica. Mas a semana não foi só de protestos contra as passagens. Teve também as manifestações contra os gastos superfaturados nas obras para a Copa do Mundo (na foto, manifestação aqui em Brasília). 

Os políticos com mandato devem mesmo por as barbas de molho para a possibilidade de uma primavera à brasileira – ainda que tardia. Razões para isso certamente não há de faltar, porque há mesmo fadiga histórica de material com a corrupção e incompetência que, somadas, resultam em serviços públicos de péssima qualidade – saúde, educação e, claro, o transporte público que agora é o estopim de cenas de guerra nas ruas de várias capitais e cidades médias do país.

Exceto pela oferta de ajuda ao governo de São Paulo, o governo federal está na muda com o tema. Se os protestos resultarem em redução do preço das passagens, o governo central até sai no lucro com o impacto positivo no momentâneo desembesto inflacionário. Mas não é o caso de achar que há vencidos e vencedores nos tristes episódios que roubaram a cena na semana que o país buscava autoafirmação com a abertura da Copa das Confederações.

Quem arca com o maior prejuízo político até aqui é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e a imperícia da sua polícia que atira primeiro para só perguntar depois. Alckmin é candidato à reeleição, mas há tempo de sobra para que a tensão se dilua e tudo caia no esquecimento.

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COMUM DE DOIS GÊNEROS

No Quarta, 23 Janeiro 2013 21:48.

Lula descarta candidatura à sucessão de Dilma. Já em 2018...

O ex-presidente Lula tem roubado a cena do noticiário político um tanto quanto morno neste início de ano. Lula manda avisar à praça que não vai disputar a Presidência em 2014. O recado foi dado, no início desta semana, por ninguém menos que dois ex-ministros de Lula: Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência) e Paulo Vannucchi (Direitos Humanos), além do presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto. Lula não será obstáculo aos planos reeleitorais de dona presidenta. Já para 2018 a conversa é outra. Com vida e saúde, Lula estará pronto para cumprir profecia de manter o mando petista por duas décadas.

Se não vai disputar o Planalto no ano que vem, o petista-mor tem influência indiscutível no pedaço. Os jornais noticiam, sem desmentido formal a quem mais interessa o tema, que o ex-presidente aconselhou sua sucessora a mudar os rumos do governo com maior atenção ao empresariado e maior frequência de viagens para fora de Brasília. Por que fazer os anúncios de novos programas e projetos no ar-condicionado do Palácio? Melhor ir para aonde o povo está. Dilma imediatamente acatou a sugestão e, ato contínuo, se desloca para o sol ardente do Piauí, onde aparece enfiada em garboso gibão de couro sob seu tailleur de fino corte, a se põe a assinar atos de governo em praça pública.