Bloco de Notas

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O DIA SEGUINTE...

No 16 Março 2015.

Que lições o governo pode tirar após o susto do 15 de março?

O governo federal toca a vida como pode nesta semana que dá sequência aos protestos de rua do último domingo. Atua na tentativa de não passar recibo sobre o susto que levou com as multidões nas ruas, justamente por não avaliar o tamanho da encrenca que estava caminho. Prova disso foram as entrevistas coletivas das duas 'pareias', ou parelhas de ministros, escalados para falar ao distinto público ainda na noite do domingo e na manhã desta segunda-feira – escalados para a clara tentativa de jogar água na fervura.

É a vida que segue, porque democracias mais ou menos sólidas como é o caso da nossa, não permitem que governos caiam de maduro ante o primeiro abalo. Impeachment, como bem sabem os líderes de oposição, não é ato de voluntarismo, porque depende de rito institucional e circunstâncias que, neste momento, ainda não estão dadas. A guerra, no momento atual, é de nervos – para ver quem pisca primeiro.

Dona presidenta ainda tem forte base de apoio e a caneta que permite preservar mandatos. Resta saber se saberá usá-los com discernimento, dado o clima de urgência que rodeia os seus passos após a marcha dos milhões pelas ruas do país. Sim, porque uma coisa é certa: fica cada vez mais difícil fingir que está tudo bem, na tentativa de vencer os insatisfeitos pelo cansaço.

O momento demanda ação, algo para além do puro ‘embromation’ visto nas manifestações de junho de 2013 e mais concreto do que os discursos ensaiados desde ontem, com promessas de reforma política e pacote anti-corrupção. Reforma política é a panaceia de sempre, que se retira da gaveta toda vez que o governo se vê encurralado pela pressão popular. Tudo estar a indicar que ela, a reforma política,  e o projeto anti-corrupção não serão insuficientes para sossegar a turba. O buraco é mais embaixo e atende pelo nome de recessão. Por isso o tom de mais humildade da presidente nas aparições da segunda-feira.


O discurso de combate à corrupção é mero paliativo, porque ninguém, em sã consciência, vai acreditar que saia do forno deste ou de qualquer outro governo a solução que transforme os brasileiros todos em angelicais cidadãos. A corrupção não é mero detalhe na vida brasileira e tampouco está restrita ao sistema partidário-eleitoral. Quando as pessoas saem às ruas para gritar por mais ética na política, talvez se esqueçam de que a coisa não é tão simples. A mudança é de fundo e quanto mais difícil de acontecer quando o próprio eleitor não contribui para retirar os bandidos da política. Derrubar o governo petista para manter em seu lugar o PMDB corresponde a sacudir o telhado e manter intocados os pilares da corrupção sistêmica que atrasa o país.

Vacas gordas

A cobrança contra o PT é tanto mais válida porque a ascensão do partido ao poder central se deu em nome da ética e da lisura com a coisa pública. Deu no que vimos. No que é perfeitamente compreensível a desilusão de boa parte das pessoas. As manifestações do domingo servem para muita coisa, mas essencialmente para que o PT supere o discurso inócuo de que é vítima de tentativa de golpe e de uma elite que recusa seus préstimos para em favor dos mais pobres.

Ainda que não tivesse instrumentalizado suas bolsas como moeda de troca eleitoral, como vimos à farta na sucessão presidencial, o lulo-petismo já teria que conviver com uma dura realidade: o arrocho que conseguiu impor ao país após 12 anos na Presidência anula, em boa medida, as conquistas sociais que incorporou à vida nacional. Ou alguém no governo ainda avalia com honestidade que os bolsas famílias e que tais vão atender às expectativas que os neoemergentes se deram ao direito de sonhar?

Sonho que foi bom enquanto durou o fluxo positivo de vendas das nossas commodities, durante os governos Lula. O erro talvez tenha sido o de não aproveitar a temporada de vacas gordas para fazer os ajustes que eram necessários. Um dos ministros escalados para fazer a defesa do governo diz, candidamente, que o Brasil esgotou agora todas as suas tentativas de fazer política anticíclica na reação à crise financeira mundial de 2008. Errado. O país se saiu bem naquela ocasião e nada justifica que a crise financeira de sete anos atrás sirva de justificativa para os erros de percurso.

Agora que os ventos mudaram, certamente vai ficar mais difícil achar o rumo. Esse é o desafio que a presidente deve se impor. O tempo urge. Por que, se a democracia é o menos pior entre todos os sistemas de governos já criados, ela não implica a obrigação de que se imponha ao eleito o direito de impor ao povo o sacrifício de conviver com governos que fracassam.

Das muitas lições que o governo pode tirar do 15 de março, melhor enterrar o discurso tolo do golpismo e necessidade, essa em caráter de urgência, que aponta para a necessidade da presidente não se esconder no enfrentamento da crise. Não há muito espaço para erros. Viad que segue.

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