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LULA, A CRISE E O RETRATO DE DORIAN GRAY

No 17 Março 2016.

Moro avança sinal, mas contribui com o pais ao mostrar a verdadeira face do mito Lula

A rapidez com que os fatos políticos têm acontecido no Brasil é de tirar o fôlego. Mas isso é dizer o óbvio. Os últimos acontecimentos mostraram uma elite política em clara decomposição de ideal e valores, em vexaminoso vale-tudo pela manutenção do poder pelo poder. O entorno do lulo-petismo foi dormir na quarta-feira (16), se é que dormiu com tanto barulho, atônito e irritado até a medula com a coragem um tanto camicase do juiz federal Sério Moro em revelar os diálogos de grampo com participação da presidente da República.

O que Moro fez é grave e certamente vai merecer o escrutínio dos órgãos de controle do Judiciário – não obstante seu argumento de que aos políticos é legítimo revelar o que se esconde à sombra das ligações protegidas pelos muitos sigilos. Não sai melhor a oposição do terremoto da quarta-feira, em especial o senador e presidente do PSDB, Aécio Neves, que veio a público com o dedo na cara de Lula e Dilma. A Aécio se recomendaria ir mais devagar com o andor. Pelo menos não antes que ele conclua as muitas explicações que deve ao país pelas repetidas citações do seu nome nas investigações em curso. Melhor do que isso só o silêncio oportunista das raposas do PMDB, que ofendidas por Lula fazem cara de paisagem à espera de pegar os despojos da lambança que o PT faz nos estertores dos seus mandatos na Presidência da República.

De volta à atitude do juiz Moro, tudo estar a indicar que temos agora o disparo da bala de prata que invalida a permanência de Dona Presidenta no cargo. Há evidências, legais ou não (isso agora importa pouco), de que Dilma Rousseff atuou deliberadamente para evitar a prisão do ex-presidente Lula ao levá-lo para ocupar o principal cargo da Esplanada dos Ministérios. Dilma não pode continuar no cargo porque feriu com seus atos e gestos alguns princípios republicanos basilares, casos da impessoalidade, parcialidade e moralidade ao manobrar para resgatar Lula dos riscos que corria no embate com a apelidada ‘república de Curitiba”.

Da avassaladora (perdão pelo adjetivo, leitor) massa de informações que explodiu no dia de ontem, chama a atenção o padrão baixo nível de conversa de botequim com que se tratam os condestáveis e condutores da vida nacional nessa triste quadra da nossa República. Em especial o presidente Lula, de cuja boca jorra referências pouco elogiosas contra tudo e contra todos. Lula, em sua revolta por ser alvo isolado dos rigores da lei emite juízo de valor a tordo e a direito e, sem a menor cerimônia, manda meio mundo ir tomar no c... E assim caminhamos para esta quinta-feira que promete muito.

O PT conta com a nomeação de Lula para a Casa Civil para mudar o jogo. Será missão para muitos Hércules: barrar a Lava-Jato e mudar os rumos das crises econômica e política que paralisam o governo Dilma. Os acontecimentos das últimas horas inviabilizam os propósitos lulistas. O ex-presidente chega volta a Brasília muito menor do que pretendia. A presidente Dilma sai do episódio menor, não somente porque abdicou das prerrogativas que as urnas lhe conferiu, mas por colocar o peso institucional da Presidência para o socorro do amigo Lula.

De tudo que sai do vazamento das conversas, Lula se apresenta ao país com sua face, talvez a verdadeira, muito diferente daquela com que construiu sua invejável biografia. Começa a sair de cena o mito e líder de massas que, em versão narcisista cuidadosamente construída, seria detentor de poderes quase divinos. Entra no lugar o político decrépito, preocupado apenas em salvar a própria pele e franco atirador contra reputações alheias.

O estadista que se jactava de ter colocado o mundo aos seus pés e de ter sido o melhor presidente da História, em narrativa repetida à exaustão pelos crentes militantes, apareceu nas conversas entre Lula e seus interlocutores algo parecido com a personagem do livro 'O Retrato de Dorian Gray'. Em certa medida, e a exemplo do que escreveu Oscar Wilde em sua obra, o verdadeiro Lula é revelado no negativo daquilo que todo humano tenta esconder.

No caso de Dorian, que fez uma espécie de pacto do diabo em troca da eterna juventude, com referência ao Fausto, de Goethe, é o retrato que assimila os impactos da sua idade, da decadência, do preço que lhe cobra a consciência pervertida pelos prazeres mundanos, a corrupção moral e psicológica que o levará à destruição do próximo e, finalmente, de si mesmo. 

Não é o caso de se dizer aqui que a viada imita a arte. No que é possível comparar, o ex-presidente comete o erro de avaliação de que ainda dispõe dos mesmo atributos que o fizeram deixar o Palácio do Planalto com 80% de aprovação. Aquelas circunstâncias a favor que bafejaram o Brasil e no mundo na coincidência com o seus mandatos, e que o fizeram passar incólume pelo mensalão, não existem mais.

O acúmulo de más experiências ao longo de quatro mandatos do PT dificulta sua margem de ação. No mundo real, as pessoas estão incomodadas com a inflação, o desemprego e toda de incerteza que o futuro promete. Para além disso, as falas de Lula longe do público retoma antigo dilema pátrio das contradições entre o público e o privado, mas desta vez naquele sentido mais psicológico do que realmente somos e aquilo que queremos que pensem de nós. O que o Lula magoado e rancoroso, até certo ponto com razão, que aparece nas gravações saídas do surto de Sérgio Moro, diria ao sindicalista que encantou as massas nos anos finais da ditadura? Uma hipótese possível é a de que não há mito que não envelheça quando submetido a um bom grampo.    

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