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EM MANGA, VICES CONCORREM AO ESQUECIMENTO

No 05 Abril 2017.

Nos últimos 60 anos, apenas dois deles chegaram ao cargo de prefeito. Nenhum pela vontade do eleitor

Um pouquinho de história da política de Manga para os meus 17 leitores. Todo vice-prefeito sonha em ser o sucessor do seu companheiro de chapa. A aspiração é legítima, mas a realidade mostra que chegar ao posto de segundo nome na linha sucessória no município é o caminho mais curto para se enterrar carreiras políticas que em algum momento pudessem -- talvez - terem se mostrado promissoras. 

Os números confirmam a tese: no intervalo histórico local de 60 anos, apenas dois vice-prefeitos chegaram a ocupar a cadeira do titular, nenhum deles pelo voto. O primeiro caso foi há quase 40 anos, quando Élzio Mota Dourado assumiu a vaga após o então ex-prefeito Silvino Pereira Gonçalves renunciar e lhe dar, de mão beijada, o maior presente que já recebeu ao longo da vida. Naquela época, o mandato era de seis anos. Silvino foi cuidar da vida após quatro anos no cargo. Élzio assumiu, fez o dever de casa, e foi reeleito na eleição seguinte.

O outro caso é mais recente e de natureza diversa. O atual prefeito de Manga, Quinquinha de Quinca de Otílio, era o vice de Humberto Salles em 2007, quando a Câmara de Vereadores deu início a um improvável processo de cassação do mandato do então mandatário. O que parecia impossível aconteceu: Salles foi afastado e Quinquinha assumiu por alguns dias. Foi o que bastou para tomar gosto pelo cargo. Recorreu ao Judiciário e assumiu em setembro daquele ano, quando 'herdou' 16 meses do mandato do seu companheiro de chapa. Disputou a reeleição em 2009, quando foi eleito – agora sim – com o voto popular. Sua ascensão ao cargo, no entanto, foi pela via do se chama atualmente de golpe parlamentar, em caso muito semelhante ao que colocou o atual presidente Michel Temer no Palácio do Planalto. 

Não há, desde o início dos anos 1960, o caso de um vice que tenha esperado expirar o prazo constitucional do mandato do titular no cargo para chegar ao poder com a sagração vinda das urnas nas eleições seguintes. Desde 1960, foram disputadas 14 eleições para prefeito no município, somada à indicação do prefeito biônico no mandato 1971/72. A maior parte dos vices se contentou em cumprir o papel decorativo no banco de reservas, constitucionalmente destinado ao segundo nome disponível para o exercício do cargo de executivo municipal.

O vice ideal para qualquer prefeito em qualquer lugar é aquele que sabe o papel institucional que o cargo lhe reserva e vai cuidar da sua própria vida nas suas fazendas, escritórios, comércios ou o que for. Vices que chamam para si um papel mais ativo ao longo do mandato têm boa chance de entrar em rota de colisão com o titular -- mas a convivência é possível e há exemplos disso em Manga, embora esses mesmos vices tenham caído no esquecimento. Há casos de vices que reivindicam uma sala no prédio da Prefeitura e se oferecem para representar o titular em cerimônias mais irrelevantes, casos de entrega de troféus aos campeões do esporte local, festas de formatura e demais eventos que pedem a presença de autoridades civis, militares e eclesiásticas. Ficam ali, na sombra do poder do mandatário de fato, na expectativa de cavarem seu espaço para os dias futuros.

Também há aqueles vices que servem de anteparo ao mandachuva de plantão. O prefeito passa a maior parte do tempo em viagens para ‘buscar recursos’, enquanto o vice fica na cidade com a missão de lidar com as cobranças e reclamações dos cabos eleitorais, aliados e eleitores. Não há papel mais inglório: o vice carrega o ônus das coisas ruins da gestão e o prefeito só aparece na fotografia quando ela é boa, para chutar ao gol a bola na marca do pênalti (quando se tem gol para marcar, claro).

Reeleição é o calo no sapato dos vices

A criação da reeleição no Brasil contribuiu para separar ainda mais os interesses dos prefeitos e seus vices. Desde o primeiro dia no cargo, o eleito já pensa (e articula) com vistas à danada da reeleição. Se percebe qualquer movimento do seu número 2 na mesma direção, está dada a senha para lhe cortar as asas. Os mais habilidosos conseguem convencer o parceiro de que a sua chance virá ao final do segundo mandato. Boa parte dos rompimentos entre titulares e seus prepostos surgem dessa necessidade, impossível por lei natural, de dois corpos ocuparem o mesmo espaço.

Sonhar com o mandato com o apoio do prefeito não costuma dar certo para quem é ‘apenas’ o segundo na linha de sucessão. Após oito anos de qualquer governo, o eleitor já está cansado da administração e o vice tem boa chance de ficar a ver navios. O desgaste será inevitável e o vice perde o bonde da história.

Em Manga não é diferente: somente 14% dos vice-prefeitos das últimas seis décadas chegaram ao cargo. Um deles, porque recebeu um presente que nem todo pai concede a um filho. O outro, montado numa espécie de conspiração de gabinete para cassar o mandato do titular. Situações excepcionalíssimas que não costumam se repetir em pequeno espaço de tempo.

A política, claro, é como as nuvens. Mas quando se analisa as atuais condições da política local, nenhuma das hipóteses mencionadas voltará a acontecer por tão cedo. Sem perspectivas de ter o poder de fato e de direito, todo vice sempre pode aproveitar o período em que convive ali na antessala do poder para fazer seu pé de meia. Se passar pelo crivo difícil da reeleição e acumular oito anos, pode aplicar integralmente o salário , digamos, no Tesouro Direto.

Quando deixar o cargo terá uma bela poupança. Nada mal para quem apenas esperou sentado o bafejo da fortuna, naquele sentido que lhe deu Maquiável, da sorte individual. O problema é que é raro o registro empírico de político que não tenha sido obrigado a reinvestir todos os seus salários -- e mais uns trocos -- na política. O vice é o sujeito que passa o tempo perdido em expectativas, esquecido pelo eleitor que não votou nele diretamente já no exercício do mandato. Cultiva esperanças vãs, sem perceber que é sempre o candidato ideal à deslembrança e ao olvidar-se.  

Falta analisar aqueles casos em que o vice tem papel fundamental para a vitória do prefeito do turno (como é o caso presente) e ainda assim fica relegado a segundo plano. Mas isso é assunto para um próximo artigo. Aguarde.      

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