Crônicas

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EM CRISE, HOSPITAL DE MANGA TERÁ ELEIÇÃO

No 25 Outubro 2017.

Tradicional alvo de disputa entre grupos políticos locais, controle da unidade deve voltar para o município

 Troca de comando: parte da fachada do prédio do Hospital de Manga, que terá eleição em novembro

O cargo de presidente da Fundação Hospitalar de Amparo ao Homem do Campo, a entidade filantrópica mantenedora do único hospital do município de Manga, no extremo Norte de Minas, não é remunerado. Ainda assim, tem sido objeto de disputa entre as forças politicas locais, que sempre se digladiaram para ter o controle da unidade de saúde - de grande potencial estratégico no atendimento da população de pelo menos seis municípios da microrregião de Manga.

A eleição para a troca de comando na Fundação Hospitalar está marcada para a quinta-feira (30/11). Ao todo, estarão em disputa 11 posições de comando distribuídas entre os conselhos Diretor e Fiscal da entidade. O colegiado votante é formado por indicados da secção local da Ordem dos Advogados do Brasil, sindicatos dos Trabalhadores Rurais e Produtores Rurais, Loja Maçônica, Câmara dos Diretores Lojistas, igrejas Católica e Batista, além de outras entidades da sociedade civil local e da própria Fundação Hospitalar, que tem direito a um voto na eleição.

A Prefeitura de Manga tem a prerrogativa de indicar dois delegados à votação (os secretários de Saúde e Educação) e, tudo leva a crer, vai fazer uso dessa vantagem na tentativa de retomar o controle do hospital. O site apurou que o município já tem pelo menos três nomes de plantão para entrar na disputa, com a confirmação da chapa aguardada para os próximas dias.

Um deles vem a ser o secretário de Governo, Henrique Fraga, que traz no currículo passagem não bem-sucedida por outra entidade cara à população local: a Fundação Educacional Manguense, que praticamente foi à breca após o longo mandarinato de Fraga por lá. O prefeito ainda tem na manga do colete o nome de Paulo Roberto Nunes, o Paulo Credireal, outro agregado fiel à atual administração e nome de sua confiança para administrar o hospital.

Corre por fora ainda, e com menor chance, a técnica do Judiciário Alberice Amaro Belém, que poderia representar opção mais neutra por não estar subordinada por indicação política ao projeto de poder do prefeito Quinquinha, embora fosse apoiada por ele na hipótese de entrar na disputa. Disputa por um cargo não remunerado e de dedicação quase exclusiva, porque os pepinos do hospital não respeitam horários convencionais nem domingos e feriados.

O candidato oficial deve encontrar resistência na disputa, mas ela não virá da atual oposição - que dá claro sinais de que pretende se mantar distante da quase impossível missão de administrar o hospital. Outro nome que também se apresentou como pré-candidato foi o empresário Mauro Ramos, dono da única empresa de venda de banda de internet na cidade. Ramos tinha sido, até o final da terça-feira (24), o único nome a ensaiar confirmação de chapa.

Outra candidatura que tem potencial para incomodar muito o prefeito de Quinquinha de Quinca de Otílio é o do padre Gilberto Pereira de Souza, atualmente lotado no vizinho município de Miravânia, mas que já passou pela Paróquia de Nossa Senhora Aparecida. Gilberto comandou a Fundação Hospitalar entre 2009 e 2014 e travou uma ranhenta disputa com o agora novamente prefeito pelo comando da entidade. Quinquinha chegou a se queixar ao bispo da Diocese de Januária, dom José Moreira da Silva, a quem pediu para pressionar o padre Gilberto a deixar a presidência do Fundação em turbulenta troca de acusações durante o ano de 2012. Por esse histórico tumultuado, é pouco provável que o padre entre na disputa - até porque a distância entre as duas cidades seria empecilho ao seu eventual mandato.

Criada em 1974 como alternativa de atendimento médico hospitalar à população rural do município, que, àquela altura, ainda não tinha os benefícios da seguridade social implementados pela Constituição Cidadã de 1988, a Fundação Hospitalar de Amparo ao Homem do Campo está tecnicamente falida. A pergunta que não pode calar é esta: por que tanta gente se dispõe a brigar por uma função que só traz dor de cabeça e zero remuneração? Dúvida pertinente.

A resposta é simples: o cargo de diretor-presidente do único hospital da cidade concede ao seu detenter um poder político considerável sobre decisões administrativas que impactam diretamente na vida da população de pelo menos cinco municípios da microrregião de Manga.

O ainda presidente da Fundação Hospitalar é o advogado Ulisses Ribeiro Sales, ligado à oposição política do turno e sob o campo de influência do deputado estadual Paulo Guedes (PT). Ulisses Sales já manifestou publicamente que não pretende ser reconduzido ao cargo. Tampouco o deputado pediu que tentasse a reeleição, mas preocupado que está com os destinos na política e as andanças do ex-presidente Lula, que nesta semana passa por Minas Gerais e faz escala em Montes Claros.

Ulisses quer deixar o cargo, entre outro motivos, porque diz ter enfrentado ao longo deste ano pressões do atual prefeito do município, Joaquim Oliveira Filho, o Quinquinha de Quinca de Otílio (PPS), que teria adotado uma estratégia para estrangular a já mais que estrangulada situação financeira da Fundação Hospitalar de Amaro ao Homem do Campo no seu primeiro ano do atual mandato.

O município se limitou a fazer apenas os repasses legais para a instituição e só mais recentemente, e a muito custo, teria concordado em fazer um repasse extra de R$ 20 mil para evitar que a unidade suspendesse o atendimento e pudesse garantir os protocolos mínimos para não entrar na lista negra da vigilância sanitária.

Dívida milionária

A Fundação Hospitalar de Amparo ao Homem do Campo tem no estoque uma dívida milionária que, segundo o presidente Ulisses Sales, ultrapassa a cifra de R$ 2,5 milhões. São passivos trabalhistas e previdenciários na maior parte, mas há ainda débitos com fornecedores e prestadores de serviços, além dos funcionários (muitos deles estão sem receber o décimo terceiro do ano passado). A dívida do Hospital de Manga é impagável no médio prazo.

Segundo Ulisses Sales, a situação piorou muito ao longo destes dois últimos anos. O governo federal, por exemplo, deixou de repassar R$ 500 mil do convênio que a Fundação mantém com a Secretária Especial da Saúde Índigena (Sesai), autarquia vinculada à Fundação Nacional do Índio, para prestação de atendimento à população estimada em 10 mil pessoas da reserva índigena Xakriabas, localizada no vizinho município de São João das Missões.

Esse 'rombo' nas contas fez piorar ao limite do insustentável a situação da unidade, mas há também atrasos nos repasses sob responsabilidade do governo estadual, hoje sob controle do Partido dos Trabalhadores, além da má vontade do prefeito Quinquinha em contribuir para minimizar a crise no atendimento à saúde. Só mais recentemente, o prefeito de Manga teria concordado em mobilizar seus pares na microrregião para regularizem suas cotas de ajuda ao hospital, no valor de R$ 20 reais na soma, uma gota d'água frente a oceano de dívidas da Fundação Hospitalar.

Balanço

O atual presidente Ulisses Sales fala de sua impotência para reverter a crise na entidade. Ele conta que assumiu animado por garantias de apoios e sustentação de todos os lados mas, ao fim do mandato, descobre que está praticamente sozinho no que diz respeito ao apoio institucional. A ajuda que diz receber vem de pessoas abnegadas, que fazem até rifas para arrecadar o dinheiro que não deixa faltar insumos básicos ao atendimento da população.

"Há um descaso por parte do Estado, dos municípios que atendemos e, especialmente, do governo federal que nos últimos meses tem sido uma decepção. Preocupado com suas desavenças políticas, esse pessoal de Brasília se esquece que, aqui embaixo, tem muita gente precisando ser assistida", desabafa Ulisses, que diz ter estado à frente de um mandato difícil e que ainda aguarda as muitas promessas da entrada de recursos.

O hospital de Manga, em sua visão, será entregue melhor do que encontrou, após ter passado por reformas que melhorou a estrutura dos antigos banheiros e a troca do piso, além de pintura geral no prédio. Ulisses diz ainda ter melhorado alguns pontos da gestão e avalia que o caminho que aponta para seu sucessor é buscar parcerias na iniciativa privada para tocar a unidade, estratégia que teria começado a adotar após ter feito uma visita de benchmarking à Santa Casa de Misericórdia de Diamantina.

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