Crônicas

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O PASSADO É ROUPA QUE JÁ NÃO CABE MAIS

No 29 Outubro 2017.

Com o pé na estrada, Lula se faz de mito e vende sonhos antigos que o PT ajudou a destruir

"Você não sente nem vê/ Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo / Que uma nova mudança em breve vai acontecer / E o que há algum tempo era jovem novo / Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer"

Belchior

A peregrinação do ex-presidente Lula por Minas Gerais não foi o fracasso retumbante como propõe alguns veículos da grande imprensa, muitos a soldo do PMDB - e sabe-se lá de quem mais -, mas também não foi o sucesso de público que o petismo faz crer nas redes sociais. Em suas andanças, Lula chegou a ser hostilizado por manifestantes ligados a Jair Bolsonaro - a nova face do exército de militontos despolitizados o bastante para dar a um deputado brasileiro o status de mito. O que não cai bem a um deputado brasileiro, pelos motivos sabidos, e, de resto, é prova cabal de provincianismo terceiro-mundista e bestialização do debate.

Políticos devem ser tratados como funcionários públicos que são, a exemplo do que se faz em sociedades ditas desenvolvidas - em muitos países eles andam de trem e metrô e evitam sugar o suor de quem paga impostos. Misturar mitologia com política não deu certo com Lula e tampouco dará com Bolsonaro. Os estragos ficam e aqui fecho o parênteses.

A caravana pelas Minas e Gerais, de certa forma colocou Lula em seu devido lugar. Líder disparado nas pesquisas para presidente da República no ano que vem, mas sem ter certeza de que terá condições jurídicas para registrar sua candidatura, seria inevitável não atrair audiência e alguma plateia por onde passa. Nem de longe, contudo, conserva a áurea de mito da política brasileira, dono de tirocínio e cálculo político invejáveis. Para o bem da Nação, os mitos também envelhecem (A esse respeito sugiro voltarem ao meu artigo 'Lula, a crise e o retrato de Dorian Gray') .

Aos 72 anos, o ex-presidente exibe vigor físico para maratonas políticas como a desta semana, mas sua voz e seu discurso traem sempre o mais do mesmo. Quem acompanhou a política entre os anos 1970 e 1990 do século passado não pode deixar escapar nas falas de Lula certo ranço de mercadoria estragada e o déjà-vu de velhas utopias, que o PT plantou em muitos dos que amávamos a revolução, mas que depois contribuiu para sepultá-las nesse protagonismo de mais de 30 anos na vida política brasileira.

Lula até tenta reaplicar sua antiga habilidade de mercador de esperanças, mas claramente há algo fora do tempo e espaço. Que futuro o país pode ter com Lula na Presidência depois das barbeiragens que marcaram os quatro mandatos petistas? Com quais forças ele governaria após o partido sair escorraçado do Planalto com o impeachment de Dilma Rousseff e toda sorte de bandalheiras que se descobriu após subir o tapete dos seus governos?


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A combinação de fatores internos e externos que fizeram dos anos Lula no governo um tempo de fartura chegaram a termo com o desastre da gestão Dilma Roussef. Por sinal, foi aquela conjuntura favorável que ainda serve ao que restou de discurso para Lula justificar eventual tentativa de retorno ao cargo.

Mas há outras faturas a considerar. Contas públicas arrebentadas, bancos oficiais e empresas públicas quebradas, inflação e desemprego nas alturas e um país sem rumo, além de passar o país para as mãos da quadrilha que aí está compõe o legado de Lula e Dilma ao país.

Não fosse Dilma o fracasso que sabemos, os larápios do PMDB jamais teriam coragem de tomar o poder naquela armação parlamentar que o lulo-petismo chegou acusar como golpe. Ora, o PMDB e seus satélites, PSDB à frente, se arvoraram à tomada do poder porque sabiam estar diante de uma presidente inepta na política e desastrada na gestão da coisa pública.

O que Lula pode fazer para apagar esse passado, do qual, nunca é demais lembrar, tem boa parte da responsabilidade, pois sabidamente parcela das dificuldades de Dilma já estavam lá quando ela chegou ao Palácio do Planalto, como herança maldita jamais assumida dos anos de demagogia do seu padrinho político e inventor na Presidência. São fatos, mas sobre eles Lula evita fazer o necessário mea-culpa.

Recepcionado por onde passa por militância catequizada e sem nenhum senso crítico a respeito do fracasso da experiência petista no poder, Lula é pura repetição quando investe nos proselitismos para cada ocasião. Em Minas, voltou a se comparar a Tiradentes para dizer que não cabe em si mesmo, no seu corpo finito de 72 anos, e propõe ser uma ideia a se eternizar no coração de milhares de brasileiros donos a seu ver, da verdadeira consciência política.

Bate na tecla de que, não fosse ele, milhões de brasileiros não teriam comida e direito a cursar uma faculdade, que é odiado por tirar a filha da empregada da senzala e por ai vai. Sim, seu governo foi responsável por boas políticas públicas, mas também ceifou banqueiros e empresários bandidos, com quem manteve relações pouco convencionais. Dessa responsabilidade, que motiva os muitos processos a que responde, ele tergiversa com o argumento de sofre perseguição política.

Panelas surradas 

O giro de Lula pelo Brasil, como se sabe, é tentativa de emparedar o Judiciário, não sem razão, porque os juízes efetivamente pegam pesado em relação ao seu nome, sobretudo agora que a Lava Jato morreu na praia, com as manobras que impedem as investigações em torno do presidente Michel Temer e do senador Aécio Neves - aquele que considerou a hipótese de matar um parente para evitar ser delatado.

As caravanas também são campanha eleitoral antecipada, embora o ex-presidente tenha o cuidado de negar isso o tempo todo. Viajar pelo país e ser recebido por militantes ainda não é crime, pelo menos até que Aécio e sua turma nos três poderes decidam mudar a Constituição com o argumento de que, entre os presidenciáveis, só Lula, quiçá Bolsonaro, conseguem reunir seus gatos pingados em praça pública.

Seja como for, Lula ainda será figura central em mais uma sucessão presidencial brasileira. Com ele no páreo, o cenário será de disputa mais nervosa, com campos ideológicos mais definidos. Sem Lula, abre-se avenida de possibilidades para saber quem herda os quase 40% de intenções de voto que teria se a eleição fosse agora. Essa centralidade do ex-metalúrgico na vida nacional é sinal de que o país reluta em olhar para diante. Prefere se mirar no retrovisor das oportunidades que se perderam no tempo.

Lula sabe disso, com sabe que não há novidades no front. Toda existência política de Lula foi dedicada a dividir o país entre o 'nós' e os 'eles' de ocasião. Com muitos dos 'eles' que considerou inimigos fervorosos, se juntaria depois, quando o partido chegou ao poder.

Lula é esse sapato velho, recheado de ideias antigas, mas que o Brasil hesita em descalçar, malgrado todo esforço do juiz Sérgio Moro e da torcida de bobalhões que, embora escolarizados, também cultivam seus heróis fabulosos entre as frestas dos telhados de suas varandas gourmet - ali mesmo, na laje fria, onde descansam as panelas surradas à espera de motivos velhos para retinir.

Comentários  

-1 #11 Luciano Marcos 31-10-2017 09:53
Infelizmente nosso cenário atual mostra que não há novos líderes capazes de aglutinar um projeto de nação, que esteja liberto de todas as amarras políticas que vem da nossa herança colonizadora ou dos interesses perversos do mercado. A política de tão banalizada com o distanciamento dos interesses do povo passa por tanto descrédito que coloca em risco a nossa frágil democracia. Para onde seguir é um desafio.Nesta lacuna o velho pode ser reciclado para uma transição ou correr o risco de afundar ainda mais com os nomes que estão no páreo.

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0 #10 Gustavo Reis 31-10-2017 09:52
Parabéns Luis Claudio Guedes Oliveira pela lucidez em alguns pontos do texto. Realmente, este suposto "justiceiro social" e criminoso tem uma magia que cega a capacidade de análise de quem foi o verdadeiro culpado da deterioração que assola nosso país.
Agora eu sempre concordei com o Lularápio quando ele disse que "o povo pensa com a barriga". Portanto, o resto é que se exploda. Esse cara é muito calculista, o povo com a boca cheia não tem como manifestar contra um mal governo. Assim esses tem carta branca pra roubar.

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-2 #9 Cidy Olimpio 31-10-2017 09:51
Grande Luís Cláudio Guedes! Perca seu precioso tempo respondendo quem mal sabe o que é língua, não. Você escreveu um texto perfeito e pronto.


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-2 #8 Levy Castilho 31-10-2017 09:51
Esse rapaz sabe somar 2+2?
Quem VOTOU e ELEGEU Temer vice Presidente foram vcs mesmos seus quadrúpedes. Michel Temer é ovo chocado debaixo do sovaco de pessoas como vc, que apostou suas fichas em Dilma'nta!


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0 #7 George Duarte 31-10-2017 09:50
Pra começar, Lula não é passado, é o presente possível da reconstrução do Brasil justo que estávamos construindo. E estamos retornando com ele pra expulsar essa bandidagem que esses equivocados golpistas como você Luis Claudio Guedes Oliveira colocaram no poder pra nos retornar a escravidão.Pare com esse discurso de robô programado pela rede golpe e vá ajudar seu povo, você não é banqueiro nem rico, você é pobre e está sofrendo como a maioria dos brasileiros.

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Duarte, atacar quem pensa diferente é o recurso mais à mão para todo canalha. Você pode apresentar argumentos contra o que escrevi e mostrar porque Lula não é passado. Da forma como coloca, é apenas um membro de seita cego pela fé ao grande líder - o que só reforça minha tese de que criar mitos na política não é atitude saudável. Não vejo a Rede Globo há um bom par de anos e não tenho nenhum motivo para defendê-los, muito menos atacá-los. Penso que não é esta a questão. Quem ataca imprensa é gente como você, e só para ficar no exemplo: robô programado para defender o indefensável. Tivesse lido o texto (que talvez seja um pouco extenso para seu nível mental), não teria vomitado ódio contra quem não conhece. Não sou banqueiro e nem sou rico, decerto, mas lamento muito no que nosso país se transformou pelas quadrilhas que você parece conhecer mais de perto do que eu - falo de gente que, outro dia mesmo, estava abraçados com o lulopetismo no poder. Querem consertar o país? Onde estava a esquerda brasileira na semana passada no dia da votação da segunda denúncia? Por que não havia uma única alma do seu naipe aqui na Esplanada para gritar o 'fora Temer'? Isso diz muito sobre a reconstrução com a qual você sonha.
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+1 #6 jucuri 30-10-2017 20:05
a um ditado popular> quem votar em ladrão e ladrão tambem,
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0 #5 Josafá Mendonça 29-10-2017 18:05
Verdade. O sonho foi extirpado através de uma corrupção generalizada.

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0 #4 Leonardo Barros 29-10-2017 18:05
Uma coisa eu sei, na Gestão do PT eu nunca paguei R$ 4,30 no litro de gasolina e nem R$ 82,00 num botijão de gás. Isso sim eu sei...


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-1 #3 Carlos Gomes Cardos 29-10-2017 18:04
Não acho que o Lula está vendendo sonhos , se fosse assim não teria tanta gente atrás dele é Lula 2018
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+1 #2 Romualdo Goncalves 29-10-2017 18:03
Passei 30 anos da minha vida ouvindo este cidadão falando a mesma estória. Será um desastre a eleição de um presidente que apresenta no seu discurso principal a vitimização e a luta de classes. Precisamos de alguém que pacifique a sociedade, com responsabilidade social atrelada a diminuição do estado brasileiro e investimento pesado em educação.. É de chorar ver a lista dos possíveis pretendentes!! Abraços Luís!!


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