Política

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MANGA: UMA PONTE BEM MAIS LÁ PRO FUTURO

No 09 Junho 2017.

Em audiência patrocinada pelo Judiciário, lideranças regionais debatem construção de ponte sobre o Rio São Francisco

[ATUALIZADO] - O olhar estrangeiro captura com mais facilidade os erros na paisagem. A obviedade do absurdo que a falta de uma ponte faz para a travessia do Rio São Francisco entre Manga e Matias Cardoso parece ter saltado aos olhos dos atuais juízes titulares da Comarca de Manga, no extremo Norte de Minas. Dos gabinetes que ocupam no belo prédio do Fórum João Urtiga da Cunha, que fica quase pendurado logo ali no barranco do Velho Chico, os magistrados João Carneiro Duarte e Luiz Felipe Sampaio Aranha têm diante de si a visão privilegiada das águas do São Francisco e o vai e vem das balsas que operam na travessia local. 

Livre da contaminação pelo conformismo acumulado em décadas de descaso do poder público em relação ao problema da travessia, os juízes comandaram nesta sexta-feira (9/6), no salão de uma casa de eventos em Manga, a segunda audiência pública convocada para debater a construção da futura ponte naquele trecho do São Francisco, outrora reconhecido como rio da integração nacional e agora seriamente ameaçado de morte pela ação predatória dos homens.

Os promotores do Ministério Público local Guilherme de Sales Gonçalves e Guilherme Abras Guimarães de Abreu também integram o movimento que, de certa forma, exorbita a divisão clássica dos três poderes imaginada por pensadores ainda na antiguidade, mas definida nos moldes em que a conhecemos a partir da teoria desenvolvida por Charles de Montesquieu na obra o “O Espírito das Leis”, de 1748. 

Atribuições dos poderes à parte, é preciso reconhecer que a tentativa de reunir, em âmbito local, as forças sociais e políticas, nessa espécie de concertação suprapartidária, capaz de contribuir, quem sabe, para evitar que essas mesmas forças politicas anulem mutuamente os movimentos na direção dos interesses da população, é considerada bem-vinda por quem enfrenta décadas de má prestação de serviço na travessia.

A audiência em Manga contou com a participação do secretário-adjunto de Transportes e Obras Públicas, Célio Dantas de Brito, e dos deputados estaduais Paulo Guedes (PT) e Arlen Santiago (PTB), além de prefeitos de sete municípios da microrregião (Jaíba, Juvenília, Manga, Matias Cardoso, Montalvânia,  São João das Missões e Miravânia, que enviou à vice-prefeita como sua representante) e um magote de vereadores, sempre figurantes nessas ocasiões.

O encontro desta sexta-feira é o segundo patrocinado pela Comarca de Manga. Prefeitos e vereadores, além de lideranças da chamada sociedade civil participaram de encontro semelhante há pouco mais de um mês (na foto ao lado), quando definiram aumentar o escopo do movimento com o convite à participação de deputados votados na região e representantes de governos com atuação em âmbito regional.    

O prefeito de Manga, Quinquinha Oliveira (PPS), e seu aliado Arlen Santiago tiveram participação secundária na audiência promovida pelo Judiciário. Em sua fala, Arlen, que é medico, fez uma parolagem sobre as vantagens que a ponte pode representar para a saúde da população regional, além de hipotecar seu apoio ao movimento, com a promessa de que vai, na condição de opositor, pressionar o governo estadual para que destine recursos para o projeto. Santiago fez ainda a rotineira exaltação aos prefeitos aliados presentes ao encontro. Prefeitos que também deram o seu recado, com o mais do mesmo em apoio à inciativa do Judiciário.

Primeiro a falar, na condição de prefeito do muncípio que sediou a audiência, Quinquinha gastou boa parte do seu discurso para propagandear um antigo livro de visitas de autoridades ilustres ao município, que ele diz ter encontrado durante buscar à documentos em arquivo. O caderno, de páginas amareladas pelo tempo, ficou à disposição dos presentes para assinatura (foto). O prefeito de Manga parece não ter se dado conta de cometeu uma pequena gafe ao abrir o livro de presenças para evento do qual não foi parte organizadora. Mas vamos adiante com o que interessa.  

O fato do Judiciário se posicionar de forma ativa na defesa da construção da ponte sore o Velho Chico parece não ter causado estranhamento entre os presentes, exceto os políticos, que não passam recibo e disfarçam bem suas insatisfações pela ingerência em seara que consideram exclusividade suas. Política, como é sabido, não consegue conviver com o vácuo. Os sinais dos tempos há muito tomaram conta do Brasil: por aqui é mais fácil saber de memória os nomes dos 11 ministros da Suprema Corte do que lembrar quais são o 11 titulares da seleção nacional de futebol.

A histórica omissão dos poderes Executivo e Judiciário em relação ao assunto clama mesmo por preenchimento de espaço. O tratamento dado ao encontro nas redes sociais flutua ente o apoio da população à iniciativa e certa descrença com a concretização do projeto. Para quem sonha com a ponte, não importa muito a cor do gato, contanto que ele cace o danado do rato. Construir a ponte o Judiciário certamente não vai conseguir, isso não faz parte da sua atribuição institucional. Mas é de se reconhecer a importância da iniciativa. Já terão feito muito se conseguir provocar o brio apagado das lideranças regionais, não de agora acomodadas em relação ao tema.

O argumento dos juízes é que uma solução definitiva para os problemas da travessia seria uma espécie de indutor do desenvolvimento microrregional, pelo impulso que acrescentaria à economia local com reflexo na geração de emprego e os ganhos que a melhoria na acessibilidade representaria para áreas distintas como setor da saúde, comércio e o agronegócio.

Governo garante R$ 2,4 milhões para projeto-base da ponte

A audiência conseguiu avançar no sonho da construção da ponte lá nesse futuro ainda incerto, que se espera seja breve. Levado a Manga pelo deputado Paulo Guedes, o secretário-adjunto de Transportes e Obras Públicas, Célio de Brito, anunciou a conclusão da licitação que definiu a contratação da empresa Enecon S/A Engenheiros e Economistas Consultores, com sede em Belo Horizonte, para elaborar o projeto executivo da ponte. O processo licitatório que escolheu a Enecom foi homologado há duas semanas, com custo previsto de R$ 2,4 milhões. As chamadas ‘condições construtivas’ para a obra prevê extensão de 930 metros, 13,8 metros de largura e melhoramento dos acessos, com 2,1 quilômetros de extensão.

Fontes ouvidas pelo site consideram positiva a iniciativa da Comarca de Manga. A elaboração do projeto é um passo importante para a construção da ponte, embora não represente garantia de que isso vá acontecer. Com o projeto em mãos, contudo, os representantes políticos da região podem correr atrás dos recursos nas esferas estadual e federal para garantir a execução da obra. Falado em nome do governo do Estado, o Paulo Guedes prometeu voltar à cidade até o final do mês de junho para anunciar a ordem de serviço que autoriza a elaboração do projeto executivo da ponte.

Embora não seja sonho impossível, a construção da ponte na travessia entre Manga e Matias Cardoso terá alguns obstáculos pela frente. Além da incapacidade óbvia de investimentos por parte do Estado brasileiro em qualquer dos seus níveis, há ainda o fato de que a concessão para exploração do serviço de travessia por meio de balsa foi concluída há pouco mais de um ano, com a adjudicação do direito de exploração do serviço pelo prazo de 15 anos para a empresa paraense Navegação Confiança. O projeto executivo da obra talvez precise mencionar a previsão do custo da indenização que o governo de Minas deveria à concessionária em caso de cancelamento unilateral do contrato.

A montante e a jusante há dois exemplos favoráveis ao sonho da travessia sobre estrutura de concreto, em lugar das plataformas atuais das balsas, na travessia entre Manga e Matias. A ponte Guimarães Rosa, na BR-030, na ligação entre Carinhanha a Malhada, na Bahia, a cerca de 50 quilômetros de Manga na carreira do rio. A outra, é a ponte que liga Januária a Pedras de Marias da Cruz, na continuidade da BR-135, em Minas Gerais, a pouco mais de 100 quilômetros de Manga. São dois exemplos usados pelos que advogam a construção da nova passagem. Mas há um porém: nos dois casos, a travessia dá continuidade ao traçado de rodovias federais, a BR-030 no caso baiano e a BR-135. No caso da travessia em Manga, a interligação vai se dar entre uma rodovia federal, a 135, e outra estadual, a MG-401, pelo lado de Matias Cardoso. O alerta sobre esse obstáculo não é meu, é do próprio Departamento Nacional de Infraestrutura Rodoviária, o DNIT.

Um nó para a política desatar com alguma dose de boa vontade, pois não pode existir limites para o sonho. A ponte em Manga parece ter avançado uma casa após a reunião provocada pelo Judiciário em Manga, testemunha privilegiada de quanto o tempo passa devagar sobre as águas do Rio São Francisco.


Veja o que já publicamos sobre o assunto:  

DER DEFINE LOCAL DA PONTE MANGA-MATIAS 

ESTADO HOMOLOGA OUTORGA DA TRAVESSIA

 

Comentários  

0 #1 Wagner Madson Carnei 09-06-2017 19:15
muitas palavras, tudo sem contexto ou conteúdo!!!matéria não fala nada!!
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