Política

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TRAGÉDIAS ADJACENTES

No 08 Outubro 2017.

 

No domingo, 1° de outubro, Stephen Paddock, de 64 anos, dispara contra a pequena multidão que assistia ao festival de música country no pátio de um dos grandes hotéis de Las Vegas, nos Estados Unidos. O saldo da tragédia: 59 mortos e mais de 500 pessoas feridas. Quatro dias depois, em Janauúba, no extremo Norte de Minas, Brasil, Damião Soares dos Santos, o Damião do Picolé, 50 anos, entra na creche Gente Inocente e, sem mais explicação, ateia fogo no local após espalhar gasolina sobre as crianças e no próprio corpo. Até agora os mineiros choram 11 mortes e mais de 50 vítimas gravemente feridas.

As duas tragédias têm em comum o fato de que os dois matadores (serial killers) deram cabo à própria vida, após os atos insanos que escolheram para colocar ponto final em suas tristes existências. Atrás de si, deixaram rastros de sangue e dor. Impossível dizer se há ponto de contato entre essas duas e lamentáveis histórias, mas não é de todo improvável que Damião tenha sido influenciado pela imensa repercussão da matança na madrugada iluminada daquele ponto do deserto do Nevada.

Em contraposição a essa hipótese está o fato, também verdadeiro, de que outros fatos iguais não se repetiram ao redor do mundo. Nunca se sabe. O mundo em rede espetaculariza fatos em velocidade nunca vista. Tudo é fartamente fotografado, filmado e ganha contornos de maçaroca nas redes sociais - como foi o caso da tragédia de Janaúba, onde a repercussão contribuiu sensibilizar as pessoas em ajuda que foi muito bem-vinda.   

O que é possível inferir com uma boa dose de acerto é que mentes assassinas com essas de Stephen e Damião são levadas a descontar em pessoas inocente suas frustrações e que isso é subproduto, infelizmente, da sociedade atual. O Estado Islâmico não reivindicou para si o surto de Damião (nem poderia), mas tentou fazê-lo no caso americano. Os muitos casos de ataques terroristas dos últimos anos só corroboram a ideia de que ninguém mais está seguro em lugar nenhum. Umas das táticas do terror é parecer maior do que realmente é - no que potencializa sua capacidade de banalizar a tragédia. Mas o caso de Janaúba não foi um ato terrorista, dirá o leitor mais atento. Não é, no sentido que todos conhecemos, mas tem o fato de que alguém se imola seja lá por que motivo e o efeito é semelhante no medo que provoca.       

Esse é o grande risco desses nossos dias. A sensação de insegurança cresce muito com a proliferação da informação em tempo real. Que pai ou mãe pode trabalhar em paz se parar pensar na ameaça de que, a qualquer momento, um louco qualquer pode invadir a creche ou a balada que seus filhos frequentam?

O caso de Janaúba não foi o primeiro nem o mais grave ocorrido no Brasil. Em 2011, Wellington Menezes de Oliveira invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, no Bairro do Realengo, para sacrificar 11 crianças. O atirador se matou após ser alvejado por um policial.

O horror da creche Gente Inocente é este mesmo:

a proximidade da tragédia, da imensa cicatriz que ela impôs a uma cidade pacata do semiárido mineiro, que por algum intervalo de horas vira notícia no mundo inteiro. Eu mesmo ouvi breve nota sobre o assunto na transmissão em inglês da rádio BBC de Londres, que ouço volta e meia para aprimorar meu contato com a língua.

É doloroso para o Brasil que esse tipo de ato terrorista, porque no fundo é disso que se trata, venha a fazer parte da nossa rotina. Já há sofrimento demais no país, que não consegue avançar na solução para o dilema de ser uma das sociedades mais desiguais do planeta.

A morte já é rotina nas cidades brasileiras, grandes ou pequenas. Casos como o de Janaúba têm a agravante de colocar na agenda o insondável perigo de outros logos solitários andarem por aí à espreita, prontos para chamar a atenção para suas pobres vidas em um gesto de desespero.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, o prefeito de Janaúba, Carlos Isaildon Mendes (PSDB), argumentou que fatos como esse perpetrado pelo vigia Damião Soares são praticamente impossíveis de se evitar. Concordo com ele. O que não é possível entender é porque o forro do teto da creche continha material inflamável ou porque não havia extintores de incêndio naquele espaço público. Não é só em Janaúba e não é só a pobreza e os orçamentos minguados das nossas prefeituras que justificam fatos como esse. Há muito de negligência e erros em escolher prioridades.

Além de servir de mais um alerta para autoridades normalmente relapsas em relação a tudo, e que só reagem quando a porta está escancarada, o caso da creche Gente Inocente fez brotar da aridez desses nossos tempos a solidariedade de milhares de pessoas e o gesto de heroísmo Helley de Abreu Silva Batista. Arriscar a vida para salvar filhos que não eram seus comove e resgata nossa esperança no ser humano. 

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