Política

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TERREMOTO EM ITACARAMBI: 10 ANOS DEPOIS

No 10 Dezembro 2017.

Vítimas do tremor de terra viram sua vida mudar pouco após tragédia

O repórter Luiz Ribeiro traz à nossa fraca memória o evento que, há 10 anos, assustava o Norte de Minas e o país, pelo ineditismo de suas consequências. O tremor de terra registrado na comunidade rural de Caraíbas, em Itacarambi, no extremo Norte de Minas, marcava a primeira morte registrada por essa causa no Brasil.

Uma criança de apenas cinco anos foi vitimada, enquanto dormia, após a casa em que morava ruir com o impacto dos tremores. Ribeiro desta que o sinistro, vamos chamar assim, apesar de trágico, contribuiu para o avanço dos estudos sobre fenômenos sismológicos no país.

O Norte de Minas, por sinal, passou a ser sobre o tema e motivo de estudos de especialistas, depois que outros casos de tremores de terra foram registrados em Montes Claros após o evento em Itacarambi. A descoberta de que a região pode estar sob uma falha geológica assustou os norte-mineiros.

No caso de Itacarambi, o então governador Aécio Neves (PSDB) visitou a cidade, um ano depois da tragédia para fazer a entrega de 76 casas populares para abrigar as famílias atingidas pelo impacto dos tremores - que teve grande repercussão na imprensa nacional e mesmo fora do país. Depois disso, e para não fugir do velho descaso do poder público no país, o assunto caiu no esquecimento e muito pouco foi feito. As famílias foram cadastradas no programa federal Bolsa e Família e toca suas vidas entre a 'rua' e suas antigas roças. Não há registro de iniciativas oficiais para prevenir novos sismos. 

Imagem: Agências Minas 

Vítimas do terremoto foram transferidas para casas populares nos arredores da cidade

Confira o texto do repórter Luiz Ribeiro, que gentilmente cedeu o material para nossa publicação. Ao final, link para a entrevista que ele fez com o professor-doutor Lucas Vieira Barros, do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), que acompanhou o caso de perto:

Há 10 anos, um tremor de terra pela primeira vez provocava morte no país e abalava também as estruturas da sismologia brasileira. Em 9 de dezembro de 2007, o fenômeno de 4,9 graus na Escola Richter, que praticamente devastou a comunidade rural de Caraíbas, no município de Itacarambi (Norte de Minas), matou a menina Jessiquele Oliveira Silva, então com cinco anos, que dormia em casa com a família quando as paredes vieram abaixo. Seis pessoas ficaram feridas, duas delas com traumatismo craniano. Das 77 casas da localidade seis ficaram completamente destruídas e as demais tiveram as estruturas abaladas. Com isso, todas as famílias foram removidas para a área urbana de Itacarambi, a 30 quilômetros, onde passaram a morar em um conjunto habitacional construído pelo governo do estado.

Além da comoção, o tremor de Caraíbas passou a ser considerado um marco na sismologia brasileira. “Foi um acontecimento que, apesar de triste e lamentável, teve reflexos significativos sobre o pensamento das pessoas em geral e de nós, sismólogos. Serviu para mostrar que, diferentemente do que se pensava, a terra pode tremer no Brasil, e com consequências trágicas”, afirma o professor Lucas Vieira Barros, do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), responsável pelos estudos sobre o abalo sísmico na comunidade rural, cuja causa foi uma falha geológica existente na região. “Foi um aviso de que deveríamos intensificar os estudos e investigações sobre o potencial dos sismos brasileiros”, acrescenta.

O especialista salienta que, passada uma década, a ciência avançou em relação aos sismos no país. “Cresceu muito nosso conhecimento sobre as ocorrências sísmicas, no espaço e no tempo, embora ainda seja pouco entendida a sismicidade do interior continental estável, como é o caso do Brasil”, afirma. Mas Lucas Barros destaca que os tremores continuam imprevisíveis. “Os sismos brasileiros podem ser traiçoeiros. Podem acontecer em qualquer lugar, sem nenhum sinal. Caraíbas/Itacarambi foi um caso desses. Naquela vila, que era habitada havia mais de um século, ninguém nunca havia ouvido falar sobre tremores de terra”, exemplifica.

O especialista da UnB lembra que Minas Gerais é um “estado sísmico”. Foi a unidade da federação com maior registros de tremor de terra no ano passado, conforme estudo da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), na qual foi criado um núcleo de sismologia e uma rede sismográfica, em parceria com a UnB. Com esses equipamentos são monitorados os abalos no Norte de Minas, inclusive na própria cidade de Montes Claros, onde também há uma falha geológica, segundo estudos da própria UnB e do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP).

Famílias ainda sofrem dificuldades

O drama enfrentado pelos moradores de Caraíbas em virtude do tremor de terra de Caraíbas, há 10 anos, é lembrado por José Camilo Alves, que, na ocasião, era o responsável pela Defesa Civil Municipal de Itacarambi. “Foi uma verdadeira tragédia para as famílias da localidade”, recorda.

Ele explica que a comunidade vivia de pequenas lavouras e criações e, de repente, viu seu mundo desabar. Estudos identificaram uma falha geológica exatamente embaixo do povoado. Após o fenômeno, todas as casas foram condenadas pela Defesa Civil.

Passada uma década, os moradores que trocaram Caraíbas por moradias na sede de Itacarambi continuam em dificuldade. De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, a maioria dos atingidos sobrevive graças ao auxílio do Programa Bolsa-Família, do Governo Federal. Por outro lado, algumas famílias, devido à falta de emprego na cidade, mesmo com o alerta da Defesa Civil, voltaram a morar na localidade. Para isso, reformaram ou reconstruíram moradias abaladas pelo tremor da madrugada de 9 de dezembro de 2007. 

A terra pode tremer no Brasil, e com consequências trágicas’, diz o professor Lucas Vieira Barros. 

 

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