Política

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A HORA DO ESPALHA BARATAS

No 08 Fevereiro 2015.

Datafolha mostra tamanho da fissura entre governo e o povo. Defesa fica mais frágil

Cronistas aliados do governo petista na mídia, não se espante leitor, que os há e em bom número, mesmo e para além do universo da blogosfera bem-remunerada, não conseguem mais segurar sua perplexidade diante do rápido movimento que traga a credibilidade e a margem para manobras de Dona Presidenta. A pesquisa Datafolha divulgada neste domingo pela ‘Folha de S.Paulo’ torna o desgaste do governo mais palpável: os sonhos ficaram para trás e algumas nuvens escuras sobem sobre o horizonte da política em Pindorama.

Os números da pesquisa são desalentadores para quem se esforça na defesa da presidente e seu governo: a avaliação positiva caiu de 42% para 23% (conceitos ótimo ou bom) em menos de dois meses. Na ponta contrária, os que avaliavam o governo como ruim ou péssimo subiram de 24% para 44%. Segundo a ‘Folha’ essa é a mais baixa avaliação de um presidente desde FHC, com 46% de reprovação em 1999. Para 77% dos entrevistados, a petista tinha conhecimento da corrupção na Petrobras. Mais da metade (55%) acha que a situação econômica do país vai piorar – o maior índice desde 1997.

“Dilma Rousseff está na aurora do segundo mandato, mas parece viver um momento crepuscular”, diz a reportagem de capa revista ‘Carta Capital’, até outro dia um veículo de matiz governista, agora atordoada entre os sons das risadas festivas que se ouve nos jardins da casa grande, em oposição secular aos gemidos que já se começam a ouvir vindos dos limites da senzala. Esta última chamada a pagar a conta, na guinada neoliberal que a presidente parece levar avante.

Ao fazer o inventário dos perigos que rondam o Palácio do Planalto, a revista de Mino Carta recorda a estiagem que prenuncia a falta d’água e o “risco galopante de racionamento de energia no País inteiro”, além da crescente insatisfação dos aliados do sindicalismo e o assento de um inimigo presidencial declarado em posto-chave da República. Desnecessário citar o nome e potencial de estrago para o fim de festa petista. “Animado com o cenário e entusiasta do ‘quanto pior melhor’, o PSDB fala abertamente em impeachment. Se o Circo Brasil ainda não pegou fogo, está bem perto”, registra a revista, ao trazer a palavra proibida para agenda de país que se queira estável no plano político.

Mas talvez a mais importante constatação no diagnóstico é o registro de que crescem as brigas internas nos intramuros do PT, com a especulação da cada vez maior distância entre a presidenta e Lula. Fonte importante das dores de cabeça presidenciais, diga-se de passagem.

A queda da popularidade da presidente não chega exatamente a ser surpresa, dado o fato concreto de que sua prática na aurora deste segundo mandato é a negação de tudo que disse em campanha. O governo virou uma fábrica insuperável de más notícias para a população, pela enésima vez chamada a pagar o pato pelos erros dos seus governantes. A crise na economia e o buraco nas contas públicas não surgiram após o fechamento das urnas em outubro passado.

Leitura obrigatória do petismo, o site Brasil2/4/7=13 gasta 24 horas e sete dias por semana para tentar jogar na linha defensiva do governo. Mesmo ali, começam a aparecer sinais de limite: já há quem duvide do país das maravilhas mostrado pelo marketing petista na sucessão presidencial, ainda de memória recente. O colunista Paulo Moreira Leite faz tentativa infantil para explicar o mau-humor do eleitorado com Dona Presidenta: o “nível deprimente de impopularidade" pode ser creditado à incapacidade da mandatária em se comunicar com a sociedade.

Para PML, o péssimo desempenho da presidente nas pesquisas se deve, pasmem!, ao fato de que ela não conta mais com o privilégio de contar com o “horário político para defender-se, para argumentar e fazer o contraponto”. Um espanto que alguém com esse talento para argumentação ganhe espaço na mídia. Seria o caso de perguntar se PML concorda em ceder o mesmo espaço para a oposição, mas a ideia é tão capenga que não vale a pena. Para o colunista, o Brasil estaria melhor se o marqueteiro João Santana pudesse indefinidamente enganar a população ao exibir na televisão um país do faz de conta. Esquece, por conveniência, que a presidente tem a prerrogativa de convocar rede nacional de rádio e TV na hora que melhor lhe apetecer. Se a presidente não o faz, é porque não tem mesmo muito o que dizer: a não ser mais porrada no fígado eleitor.

“Apesar da parcialidade dos meios de comunicação, o governo tinha como responder aos ataques, com bom espaço, no horário nobre. Também participava de debates, onde era possível denunciar a falsidade de boa parte das críticas”, escreveu PML, que usa seu espaço para vociferar contra a liberdade de imprensa.

'Carruagem desgovernada'

O clima é de barata boa nas trincheiras do jornalismo aliado. O eleitor também já se dá conta de que a maré virou e que dias piores virão. Parte da população brasileira começa a acordar da ilusão vendida pelo lulo-petismo de que seria conduzida ao paraíso. Não deu. Veja o que registra sobre o tema o sapiente e desapontado Mino Carta:

“E o PT? No governo não difere dos demais. Sua frequentação da hipocrisia está no fato de que ainda proclama ser dos trabalhadores. A esta altura, não engana mesmo os mais ingênuos, a começar por aqueles que afirma representar. Se o governo já praticou políticas de inclusão social, e com êxito não somente para os diretos beneficiados, hoje em dia tal orientação está em xeque, por obra de um ajuste fiscal a prometer desemprego e recessão”.

Não há, até aqui, nada que coloque em dúvida a seriedade da presidente Dilma Rousseff. A cada vez mais frequente repetição da palavra impeachment no noticiário, inclusive no pró-governo, não tem sustentação por um fato bem simples: a presidente não é acusada formalmente por nenhum ‘malfeito’. É preciso registrar que governos passam por maus momentos em qualquer parte do mundo e o diferencial entre eles está exatamente na capacidade em virar o jogo. A própria presidente viu sua popularidade despencar nas manifestações de junho de 2013 e pouco mais de um ano depois conseguia a reeleição. Ela vai se inscrever entre os de superação? A conferir.

Mas o clima segue piorando, até mesmo entre petistas da velha e boa cepa. O jornalista político Ricardo Kotscho, pessoa acima de qualquer suspeita, publicou na semana passada um desalentador artigo sobre o governo Dilma II. Pego um pequeno extrato de conteúdo que explica o continente:

“Pelo ranger da carruagem desgovernada, a oposição nem precisa perder muito tempo com CPIs e pareceres para detonar o impeachment da presidente da República, que continua recolhida e calada em seus palácios, sem mostrar qualquer reação. O governo Dilma-2 está se acabando sozinho num inimaginável processo de autodestruição”. O andar da carruagem também parece indicar que a oposição vê o seu lugar cada vez mais ser capturado pelo entorno de Dona Presidenta. Barata voa, total.

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