Política

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SAPO NÃO PULA POR BONITEZA, PULA POR PRECISÃO

No 28 Fevereiro 2015.

Neo-oposicionistas da remanescente bancada do Norte se ajustam aos novos tempos e sonham retomar espaço perdido


Os corredores do Centro Administrativo Tancredo Neves, aquele monumento ao desperdício que Aécio Neves legou à paisagem de Belo Horizonte durante sua passagem pelo governo de Minas, virou um lugar inóspito para o que sobrou da chamada bancada do Norte de Minas na Assembleia Legislativa. Falo, obviamente, dos deputados Gil Pereira (PP), Arlen Santiago (PT) e Carlos Pimenta (PDT), a trupe de leais servidores do regime anterior, que agora acha estranho os usos e hábitos do governo de tendência mais popular que o petista Fernando Pimentel pretende implantar entre os desvãos das Alterosas e os Gerais.

O trio parada dura formado pelos deputados norte-mineiros demonstra, certamente, alguma dificuldade para entender a novilingua de corolário esquerdista que toma conta dos meandros da administração estadual. Ouvidos acostumados a temas como ‘choque de gestão’, ‘sinergias entre o Estado enxuto e eficiente’ e ‘modernização do estado’ têm agora dificuldade para entender o palavreado dominante nos corredores do poder em Minas.

Frases em que se emprega pérolas como ‘empoderamento da cidadania’, ‘governo inclusivo e para todos’, ‘Minas não tem imperador’, ‘as ruas sabem mais que os gabinetes’, ‘vamos fazer um debate qualificado’, ‘avanços e conquistas com justiça social...’, ‘aumento do poder aquisitivo e da renda do trabalhador’, parecem ser ditas por alienígenas para quem até outro dia convivia com o padrão asséptico do demagogês e burocrático ao extremo encenado por Antonio Anastasia.

É nessa atmosfera de alheamento que os neo-oposicionistas Arlen, Gil e Carlos Pimenta tentam marcar terreno nesses primeiros meses do mandato. O trio anda meio calado por enquanto. Natural, porque Gil, Carlos e Arlen perderam completamente os macetes e cacoetes oposicionistas, após décadas na condição de aliados dos governos de plantão. O silêncio, contudo, não deve demorar muito, porque o sapo não pula por boniteza e sim por precisão, como já ensinava o maioral da mineiridade, nosso João Guimarães Rosa. A bancada do Norte vai reaprender a ser do contra, ainda que aos trancos e barrancos. Pura precisão!

Reduzida a três nomes, ante os sete representantes que a região teve na legislatura anterior, a remanescente bancada do Norte sabe que não pode sucumbir ao ostracismo ante a seca de cargos e verbas desses novos tempos. Cargos e verbas que, outrora, lhes foram tão acessíveis e fáceis. Gil Pereira e Carlos Pimenta foram secretários do tucanato em Minas e enfrentam a dificuldade adicional de voltar às lides do parlamento. Na Assembleia, eles são apenas mais uns na pequena multidão dos 77 pares.

Já Arlen Santiago, que se notabilizou até então por atuar como uma espécie de despachante de luxo para prefeitos e vereadores do norte-mineiro, o cara sempre atento às bulas e letrinhas do Diário Oficial, se ressente, neste primeiro momento, com as mudanças nas senhas que davam acesso à cozinha palaciana. O tempora! O mores!, há de se resignar nosso Cícero sertanejo ante aos novos costumes e dizeres nos salões do poder, ainda ontem tão familiares às suas idas e vindas.

Não será tarefa fácil, sobretudo pelas agruras a que está relegada toda minoria. Perder eleição dá nisso, é do jogo. Mas a turma dá seus pulos. Os médicos Arlen Santiago e Carlos Pimenta se aboletaram em cargos de presidência e vice na Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa. Gil Pereira, por sua vez, foi eleito para presidir a Comissão de Minas e Energia da Casa.

A trupe anti-PT come pelas beiradas e dão o mote de como pretendem sobreviver na política ao longo dos próximos quatro anos em que passam ao largo das benesses do poder. Vão tocar a vida no sobe e desce das audiências públicas, na tentativa de manter o protagonismo ameaçado com a mudança de mãos da caneta que decide para onde vão as verbas do Estado.     

Se o mar não está para peixe para os eleitos, imagine o que não se dá com Ana Maria Resende, de Montes Claros, e Luiz Henrique Santiago, a dupla de tucanos que perdeu a garupa do poder e acabaram na planície dos sem-mandatos?

Todos contra o novo plenipotenciário...

O tempo virou em Minas e os novos próceres da política regional são os também deputados Luiz Tadeu Martins Leite (PMDB) e Paulo Guedes (PT), alçados à condição de membros do primeiro escalão da nova administração. Os papéis se inverteram, para desconforto da nova oposição em Minas. Política, entre outras coisas, é a luta por espaços de poder e mando – no que os pulos da precisão vão levar a reduzida bancada do Norte a lutar pela sobrevivência política.

O que Arlen, Gil e resiliente Carlos Pimenta têm em comum de agora por diante é minar os passos do novo plenipotenciário da política norte-mineira. A saber, o deputado e agora titular da Sedinor, Paulo Guedes. Não estão sozinhos, pois o inédito mando do petista também desagrada a gente como o prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz (PRB), e ao pelotão dos sem-mandato e sem espaço na política. Jairo Ataíde (DEM), Ana Maria e Luiz Henrique à frente. O PT não terá vida fácil em Minas, quando nada pela torrente de más notícias que diariamente saem de Brasília e seu potencial para minar os ânimos do mais crédulo dos simpatizantes.

O mesmo vale para o espaço restrito do Norte de Minas. A nova oposição observa calada, mas não demora a ir à luta contra o alvo mais óbvio e mais próximo: o secretário Paulo Guedes. Uma prévia do que estar por vir é o repentino interesse dos adversários do deputado campeão de votos em Minas pela sucessão municipal em Manga, onde os adversários da administração local, hoje em mãos do PT, têm sido sondados com promessas de apoio e munição para impor ao petista uma derrota em seu próprio quintal. Sapo pula por mais precisão quando atravessa o chão em brasas.

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