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QUEM SEPARA O JOIO DO TRIGO

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Presidente da Câmara de Manga vê tentativa de macular instituição em denúncias contra vereadores

Há um mal-estar generalizado na Câmara de Vereadores de Manga com o que seriam acusações graves por supostos crimes cometidos por pelo menos dois vereadores. O assunto foi tratado com certo sigilo ao longo das últimas semanas, mas veio à luz do sol na reunião ordinária da Casa, na segunda-feira (19).

O presidente da Câmara, vereador Jarbas Pimenta, o Bio (PSB), vê tentativa de demonização da instituição por que, em pelo menos um dos casos, a suspeição é genérica, sem provas, e recai indistintamente sobre os nove parlamentares que compõem a atual legislatura.

Postagem do final do mês de junho, divulgada por advogado com trânsito livre nos corredores da Prefeitura de Manga, deixou no ar uma grave acusação: sem citar nomes nem a data do evento, o texto antecipava a iminente "apuração sobre possível uso de veículo de uma câmara municipal para o transporte de Brasília para Manga”.

O responsável pela muamba? Segundo a acusação, sempre no condicional, “um vereador, que seria usuário da droga, teria participado de evento oficial na capital federal, para o qual recebeu diárias e, na volta, adquirido tablete de cerca de meio quilo do entorpecente em shopping próximo à feira dos importados”.

A acusação é grave, gravíssima, especialmente porque jogada no ar de forma irresponsável, sem afirmar nada, mas lançando suspeição sobre o atual colegiado da Câmara Municipal. Sem nominar quem seria o vereador nem a cidade (embora fique implícito que seria Manga), o acusador colocou os nove vereadores do município sob escrutínio. O boato ganhou corpo e incomodou os parlamentares.

COINCIDÊNCIAS

Bio Pimienta, presidente da Câmara, vê tentativa de denegrir imagem da casa

Quase dois meses depois, a fofoca de rede social ganhou proporção de escândalo, embora não se tenha avançado muito na identificação de quem seria o vereador-traficante.

O presidente da Câmara, Bio Pimenta, colocou a instituição à disposição da Polícia Civil para ajudar na elucidação do caso. O inquérito policial aberto para investigar a denúncia ainda não foi concluído. Enquanto isso, a cidade foi tomada por rumores e especulações sobre quem seria o vereador-traficante – uma péssima e inédita novidade em quase 100 anos de existência do Legislativo local.

A acusação é marcada por uma coincidência: o suposto uso de veículo oficial da Câmara de Vereadores para transporte de entorpecente aconteceu poucas semanas após o Executivo local sofrer dura derrota no plenário.

A maioria oposicionista na Casa derrotou pedido de autorização legislativa para que o município contratasse R$ 2 milhões em empréstimo junto ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). A derrota irritou a turma dos corredores da Prefeitura.

“Há um cunho político nessa história toda, o interesse é denegrir a imagem do Legislativo”, avalia Bio Pimenta, que conta ter providenciado exame toxicológico como prevenção à boataria e suposições que vieram à tona após a acusação de Oliva.

ESTUPRO DE VULNERÁVEL

Fosse pouco o mal-estar provocado com suspeita jogada ao vento pelo leva-e-traz do subterrâneo da política local, o plenário da Câmara de Manga se dedicou a outro tema espinhoso na reunião do dia 19.

Um ofício protocolado na secretaria da Casa acusa o vereador José Carlos Mendes Gonçalves, o Macalé da Agropasto (PR), de suposta tentativa de estupro contra a adolescente M.C.O.S., que apresenta quadro de hiperatividade e distúrbios mentais. O documento foi lido em plenário, para espanto de quem esteve presente. O site preserva o nome do pai e autor da denúncia, para evitar a identificação da vítima. 

A denúncia contra o vereador caiu como uma bomba e tem sido tratada com certo melindre pela presidência da Câmara - que publica todos os ofícios que envia e recebe, mas optou por deixar o caso fora do site oficial. O cuidado é compreensível, já que a denúncia contra Macalé ainda precisa ser comprovada. Não se pode excluir a hipótese de uso político no episódio.

Eleito pela oposição, Macalé migrou recentemente para a base do governo do prefeito Quinquinhas de Quinca de Otílio, o Joaquim do Posto (PPS).    

Bio Pimenta, presidente da Câmara, repassou a documentação (ofício, mais os laudos que comprovariam atendimento psicológico à adolescente) ao departamento jurídico da Casa. Caberá à Procuradoria Jurídica acompanhar o caso. No geral, o clima na Casa é de que não se pode admitir a presença de um estuprador no parlamento. Se comprovada a denúncia, Macalé corre risco de cassação do mandato - se não renunciar, antes, claro. 

MAÇÃ PODRE

O vídeo da reunião da Câmara, publicado pelo site de eventos Norticias.com, mostra as falas na tribuna dos vereadores Evilásio Amaro (PPS) e Anderson César Ramos, o Son Nogueira (PSB), falaram em rito sumário para a cassação de Macalé da Agropasto, caso a investigação comprove as denúncias.

“Não comungo com esse tipo de coisa. Se o fato aconteceu agora ou há um ano atrás, não muda o fato. Nem tráfico de drogas nem estupro de vulnerável combinam com cidadãos e bem”, discursou Evilásio, que defende investigação também por parte do Legislativo. “Dias difíceis virão e as maçãs podres têm que sair do cesto ”, prevê Amaro.

Na contramão desse argumento, Raimundo Mendonça Sobrinho, o Raimundão (PTB), questionou o fato do suposto ataque à vulnerável ter acontecido há quase dois anos e só ter vindo à luz do sol agora, com o registro do boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia.

Raimundo Mendonça questionou o fato do colega Son Nogueira ter sido citado várias vezes no depoimento que o pai da suposta vítima de Macalé fez à Polícia Civil.

“Estou consternado com essa situação, que é doloroso, mas vejo aqui no boletim que tomamos consciência oficial disso aqui agora, mas o ocorrido foi de outubro de 2017 e o boletim só foi registrado em 1° de agosto de 2019”, destacou Raimundo Mendonça, ao deixar no ar a possibilidade da denúncia contra Macalé ter orientação política.

O vereador leu o trecho do boletim de ocorrência em que o pai da vítima disse que tomou conhecimento do abuso por meio do vereador Son Nogueira. Em fala na tribuna, Nogueira disse que “apenas orientou o pai da filha violada sexualmente” a ouvir a vítima e tomar as medidas legais junto ao Ministério Público, o Conselho Tutelar e a própria Câmara.

“Não vou julgar ninguém aqui, mas é preciso que se tome as providências cabíveis e o devido processo legal que precisa da atenção desta Casa. Não podemos compactuar com esse tipo de atitude”, discursou Son Nogueira.

'CONHECEREIS A VERDADE…'

O vereador Macalé da Agropasto não participou da reunião, no que gerou especulações sobre uma eventual renúncia ao mandato. Procurado pelo site, ele explica que não compareceu à Câmara no dia 19/08 porque estava em Montes Claros para “acompanhar uma abençoada que fez cirurgia na mesma data”. Ele diz que justificou sua ausência.

Macalé diz que não pensa em renúncia, mas parece acuado pelo forte tom de religiosidade com respondeu aos questionamentos do site. “Estou com minha consciência tranquila. Eu não devo, eu não fiço [sic] nada que eles estão me acusando. Isto é um perseguição política. Eu tenho um Deus que me sustenta. A verdade vos libertará. Em nome de Jesus”, escreveu o vereador, via aplicativo de mensagens. O site manteve os erros gramaticais e de grafia no texto que recebeu  do vereador.

E de onde teria partido essa perseguição política? Macalé desconversa. “Meu irmão, eu tenho absoluta certeza da minha inocência. Si o sonho ler o boletim da denúncia, o senhor vera de onde veio a perseguição política. No final do boletim o senhor fera de onde vem a perseguição política. Amém. A verdade vos libertará”, registrou Macalé. 

ESTRAGO NA IMAGEM

A pouco mais de um ano as próximas eleições, a Câmara de Vereadores de Manga passa por mais esse constrangimento. Ruim para a instituição que é permanente, mas também para os vereadores, os transitórios de sempre. Verdadeiras ou não, as denúncias apontam para um baixo nível de reeleição entre os atuais parlamentares.

A intriga, que parece ter sido gestada no entorno do gabinete do Executivo mirou no que viu, mas acertou no que não enxergou. Macalé, como registrado mais acima, acabara de pular de lado.

Péssimo, em qualquer circunstância. Ambas as denúnias, de supostos tráfico de drogas e do abuso sexual por parte de parlamentar, parecem ter correlação. Nas suas falas, os parlamentares dão pistas de há chumbo trocado nos petardos. que, é de se lamentar, atinge a instituiçao legislativa.  

O contribuinte pode ser perguntar se vale a pena pagar mais de R$ 1 milhão por ano para sustentar uma Casa capaz de produzir esse tipo de escândalos. Caberá o eleitor, quando o momento se apresentar, separar o que efetivamente for joio do trigo. 

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