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A OUTRA QUESTÃO MILITAR

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Enquanto o mundo faz o ajuste de rota para tocar a vida no pós pandemia, o Brasil segue sem governo e sem esperanças - sob o risco de vir a ocupar o pódium do país com o maior número de habitantes mortos pelo coronavírus no mundo. O horizonte de curto prazo para o país também segue incerto, ante a perspectiva de que os brasileiros vão enfrentar um apagão de energia por derrapadas na gestão.

Aos horrores todos desse cotidiano de fome para milhões de brasileiros, com desemprego na máxima histórica e inflação indicando sair de controle, há a recorrente e clara ameaça do presidente Jair Bolsonaro de realizar a ruptura democrática, com a agravante da postura de esfinge das forças armadas.

Há um claro retrocesso nessa seara. Após a definição constitucional de 1988 de que as forças armadas teriam papel restrito à defesa do território e às ameaças externas - além da garantia constitucinal em plano interno -, os fardados cada vez mais se arvorando ao papel de pais da pátria e condutores dos destinos da população.  

Nesse diapasão, o país é seara de crises permanentes e assim será em 2022, ano da disputa presidencial, essa mesma que Bolsonaro agora promete melar se não for ele o vencedor - e tudo indica que não será, após a tragédia humanitária que pode vitimar 2 milhões de vidas no país somente neste ano (o espantoso número inclui todas as causas, inclusive os assassinatos que voltaram a subir após o alívio dos últimos tempos).

CRISES

As crises, a bem da verdade, entraram na nossa rotina desde 2013 - quando a então presidente Dilma Rousseff enfrentou os protestos de junho - o ponto de partida para seu futuro impeachment já no segundo mandato, em 2016.

Pouca gente se dá conta disso, mas a eleição para mandatos consecutivos de Dilma, ex-guerrilheira com militância contrária à ditadura instalada no país após o golpe militar de 1964, irritou aquela parcela de fardados que não se conformara ainda com a volta do país à normalidade democrática.

Os governos Dilma foram, de certa forma, a chocadeira que iria parir Bolsonaro, obviamente que ajudado por uma série de fatores ardilosamente montados para criar em parcela da população o ódio mortal ao PT e às esquerda, somados aos desmandos da operação Lava-Jato, corte para o ex-juiz Sérgio Moro, aquele pulou o corguinho legal para retirar o nome do preferido do eleitor das urnas eletrônicas.

Mas não só isso. A presença de Dilma no centro do poder tiniha servido para retirar da cova rasa em que fora sepultada a bobagem do avanço comunista no país. Aquela mesma ameaça comunisa que detonara o golpe de 1964.

ESSA CADEIRA É MINHA

Não há possibilidade de se contar a História pelo que ela não foi, mas o retorno de Lula ao mando do país após o primeiro mandato de Dilma provavelmente teria conduzido o Brasil para outros rumos. Não sem crises na economia, porque elas não dependem apenas dos nossos erros, mas certamente uma condução que evitasse o atual degringolamento que aí está.

A escolha, contudo, foi dada e nos conduziu ao lugar que estamos e para onde não sabemos no que vai dar. É inegável que a eleição de 2014 foi o grande erro político da trajetória de Lula. Ao aceitar sem maiores questionamentos a imposição de Dilma Rousseff em disputar a reeleição, o lulo-petismo aglutinou todas as forças que lhe eram contrárias e deu no impeachment.

Todo mundo sabia que Dilma fora escalada apenas para esquentar a cadeira presidencial para o retorno de Lula ao poder. Mas Dilma é teimosa. Ela se apegou à cadeira presidencial. Bolsonaro também insinua se amarrar à cadeira, mas com o respaldo dos canhões. Dois radicais, cada um a seu modo, um caso de contrafação - com a vantagem de que Dilma sempre foi democrata.

Dilma recusou-se a fazer qualquer aceno em favor de Lula, com o argumento de que não era justo a primeira mulher a ocupar a Presidência da República no Brasil abrir mão da prerrogativa de disputar um segundo mandato.

Para chegar lá, Dilma não se limitou a jogar seu criador para escanteio. Ela atropelou a então concorrente Marina Silva, com ataques pouco elogiáveis, além de criar um país de mentiras no horário gratuito. Por pouco não perde a eleição para Aécio Neves. O resultado é conhecido: foi obrigada a deixar o Planalto pelas portas dos fundos antes de completar o segundo ano do segundo mandato.

Incomodados com a criação da Comissão Nacional da Verdade, que tentou investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988 (intervalo em que insere a ditadura de 64), os militares foram eminências pardas na deposição de Dilma.

AMEAÇAS

Os milicos rasgariam a cortina em que se escondiam no vergonhoso episódio em que o então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, pressionou abertamente o Supremo Tribunal Federal a não aceitar um habeas corpus apresentado que daria ao ex-presidente Lula o direito de disputar as eleições de 2018 - aquela em que ele era franco favorito.

Com novas eleições no radar, aí está novamente a questão militar a avacalhar a vida nacional. Agora com uma agravante: o governo Bolsonaro é militar e sabidamente incompetente para lidar com os graves problemas que o país enfrenta.

A esperança do virar de página que toda eleição em tese possibilita pode estar interditada com as recorrentes ameaças de Bolsonaro ao processo democrático. Onde estão os militares nessa hora tão crucial? Novamente tendentes a dar suporte aos delírios bolsonaristas com o argumento de Lula - e por consequência o comunismo que ele representa - não pode voltar ao poder.

FALSO DILEMA

A questão militar, claro, é um falso dilema. As forças armadas deveriam se colocar à parte da vida política do país, posto que são instituições de Estado e não dos governos no plantão. Não é o que se vê: as forças armadas estão de tal modo tributárias dos muitos favores que recebeu do sindicalista Jair Bolsonaro que, talvez, não enxerguem seu papel na história do país - mais uma vez.

Tudo muito lamentável e a contribuir para que o país jamais chegue ao futuro e ao papel que mereceria ter no tabuleiro das nações. Bolsonaro ameaça as importantes conquistas sociais e econômicas dos governos FHC e Lula e joga o país na condição de pária mundial com o seu desgraçado governo, cuja omissão e erros matam milhões de brasileiros e acelera a degradação do meio ambiente em um momento crucial para o planeta.

RECUO 

Apegados às questiúnculas do passado, os militares sinalizam não ver problemas em ser sócios desses desastres, como bem o demonstram a trágica intervenção do general Eduardo Pazuello na gestão da saúde. Não será uma boa escolha e - felizmente - há, ainda, a janela para um providencial recuo no apoio incondicional ao pior presidente da História do Brasil.

Bolsonaro reiteradamente dá mostras de caráter típico de sociopatas e precisa ter seus delírios totalitários rechaçados pelos comandantes militares. Sem esse aval, o presidente pode pouco. Rosna muito, ameaça ser mais que Deus ao dizer que só deixa a cadeira presidencial com mandato celestial, mas não vai passar disso.  

Pede-se para 2022 patriotismo de todos os lados, inclusive dos militares - que, a seguir o bom-senso, não deveriam repeteir 2018, com suas ameaçadas pouco veladas de gritar veto a esse ou aquele candidato. Uma questão militar com sinal contrário precisa ser rechaçada porque conspira contra os interesses da República, bem ao contrário daquela outra movimentação militar que a fez nascer por aqui.     

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