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O MUNICÍPIO QUE ENCOLHE

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Manga vê população reduzir e envelhecer desde a virada do século, com efeitos na economia e baixa perspectivas para o 1º centenário

Praça com o prédio da Prefeitura de Manga ao fundo: população cai ano após ano

A caminho da efeméride que comemora o primeiro centenário da sua criação, o município de Manga recebe uma notícia incômoda da estimativa populacional que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou na sexta-feira (27).

O estudo, que tem a data de 1º de julho como referência, mostra que o município perdeu 1.762 habitantes desde a realização do último censo, em 2010. O IBGE não inclui as mortes pela pandemia do coronavírus nesse estudo, que até aqui beiram os 600 mil óbitos no país.

Manga saiu de 19.813 habitantes há 11 anos para os atuais 18.051 apontados pelo IBGE. Vale a ressalva de que,  sem a realização do censo demográfico, o que se tem é estimativa com espaço para variações - ainda que pequenas - para cima e para baixo. No censo do ano 2.000, na virada do século, o município contava com 21.959 moradores. Agora, tem cerca de 3 mil almas  a menos. 

DESCASO

O Brasil deixou de realizar o censo decenal no ano passado, em razão da pandemia do coronavírus, e o adiou novamente este ano, para 2022, por problemas de caixa e um certo descaso do governo de Jair Bolsonaro com a ciência e os dados fundamentais para orientar políticas públicas e o planejamento do futuro do país.

A perda de população em Manga, obviamente, não é fato isolado. Muitos municípios do semiárido mineiro passaram por encolhimento semelhante, no que demonstram tendência para inviabilidade econômica ao longo do tempo (o tamanho da população serve como indicador para repasses federais do Fundo de Participação dos Municípios).

Para ficar em um exemplo oposto sobre como a redução da população não é a regra, o município de Jaíba, ali do lado, que se emancipou de Manga em 1992, teve incremento de 6,2 mil habitantes desde o último censo demográfico - em 2010. Quando se olha para um período de tempo maior, Jaíba, que é sede de um dos maiores projetos de irrigação do país, ganhou 12.563 habitantes desde o censo do ano 2000 e agora se aproxima dos 40 mil moradores.

Jaíba, por sinal, caminha para se tornar polo regional na produção de energia solar. Com uma economia forte, e apesar de estar situada no mesmo semiárido, o município atrai pessoas em busca de trabalho e construção de sonhos, no que gera riquezas e expectativas mais confiantes em relação ao seu futuro.

 

Comparativo das pirâmides etárias de Manga nos censos de 2.000 e 2.010: encolhimento da base e população mais velha

NÃO SAI DO LUGAR

De volta a Manga, dois grupos políticos se revezaram no comando do município desde o último censo, em 2010. Nesse intervalo de tempo, o agora bolsonarista Quinquinha de Quincas de Otílio, o Joaquim do Posto Oliveira (PSD), ficou oito anos no cargo, em alternância com o petista Anastácio Guedes, que acumula outros cinco anos até aqui (incluído o ano em curso). Esses dois grupos se rivalizam e se revezaram no poder durante a última década. Produziram fiascos.

A estagnação da população local, por óbvio, não é ‘obra’ somente dos governos locais, porque está subordinada ao fracasso geral do país, mas também é notório que os dois prefeitos e os que o antecederam não conseguiram mudar o que parece ser o encolhimento da economia local e o envelhecimento da população.

Em uma década, o município avançou em algumas frentes, claro, inclusive um crescimento, ainda que tímido, no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), a unidade de medida internacional que afere como determinada sociedade atua na melhoria de itens como a educação, saúde e renda da sua população.

Houve ainda outros avanços como a instalação da rede de tratamento de esgoto e o aumento da cobertura de ruas pavimentadas na sede e distritos. Em pano geral, no entanto, o município amassa barro nessa década perdida e não consegue sair do lugar. E o que é pior: retrocede no quesito de moradores.

DÉFICIT

O que acontece em Manga é que o total de nascimentos não consegue suprir as movimentações das migrações dos seus moradores para outras regiões do Estado e do país. Os gráficos mais acima - dos censos de 2000 e 2010 - mostram essa tendência claramente, com o número menor de pessoas nas faixas iniciais da pirâmide demográfica, com o consequente crescimento das faixas etárias intermediárias e a tendência de crescimento na direção dos mais idosos.

Esse déficit demográfico se soma ainda aos óbitos do mesmo período. Essa é uma tendência de difícil reversão, porque o êxodo é resultado da falta de perspectivas das pessoas, em relação a emprego e condições objetivas para melhoria de vida.

E o que se tem de perspectivas? Pouca coisa. Anastácio sucedeu Quinquinhas na pior administração que a cidade teve em décadas e, em tese, precisaria de pouco esforço para ser melhor. Não é que se promete para o primeiro ano da sua gestão, que ainda não disse a que veio.

E assim caminhamos para os 100 anos de emancipação política e administrativa. O primeiro centenário, daqui a um ano, acontece em meio a esse quadro de estagnação, potencializado com o envelhecimento da população - os que migram normalmente são pessoas mais novas e em período laboral ativo.

COMARCA

Não é uma equação fácil, especialmente quando falta planejamento e mandatários realmente capacitados e empenhados em criar soluções em ambiente local que possam deter o encolhimento do município.

A perda de status e importância de Manga teve início quando o município perdeu toda a porção de território às margens direita do Rio São Francisco, em 1992, com a emancipação de Jaíba e Matias Cardoso.

Ali, o município perdeu mais da metade da sua população, embora não tenha perdido renda na mesma proporção. Foi um baque do qual a cidade não soube se recuperar. Num dos golpes mais recentes, a cidade perdeu o status de sede da comarca para Jaíba, no que se acentua o processo de isolamento do qual não se vislumbra saídas.

 

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